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sábado, 20 de novembro de 2010

Pedro Almodóvar e sua Má Educação



Sou grande admirador do cinema não convencional, traduzido aqui como filmes produzidos fora de Hollywood. De uns tempos para cá tenho ignorado os blockbusters carregados de shows de imagens e fenômenos de bilheteria. Tenho escolhido obras mais reflexivas, não me importando muito, é claro, com qualidade técnica.

O cineasta espanhol Pedro Almodóvar é um de meus favoritos. Descobri o diretor por meio do filme “Carne Trêmula” e, a partir deste, passei a buscar outras produções conduzidas por ele. O que mais me atrai é o exagero temático de suas obras, que beiram ao absurdo. No entanto, paradoxalmente, a maior parte dos filmes retrata as mazelas da condição humana, que são acompanhadas, ironicamente, de um colorido intenso e enjoativo.

O filme mais recente, isto é, o último a que assisti, é “Má Educação” (La Mala Educación). Diferentemente da maioria de suas obras, nesta o diretor mergulha a fundo no universo masculino. Os críticos consideram este o filme mais pessoal da carreira de Almodóvar, no qual o cineasta expressa sua paixão pelo cinema.

Ignácio Rodriguez (Gael Garcia Bernal) é um diretor de cinema ávido por encontrar um enredo cativante para sua nova produção. Quando criança, Ignácio foi educado em um colégio de padres não tão santos como deveriam de ser (é comum Almodóvar tecer críticas à Igreja Católica). Além de sua paixão pela música e pela arte, Ignácio sentia-se atraído pelo colega de classe Enrique Serrano (Felez Martinez); esta inocente paixão infantil despertava a fúria do diretor da escola, Padre Manolo, que mantinha obsessivo interesse por Ignácio.

Estas histórias de amores passados fazem com que Enrique Serrano, agora ator, retorne à vida de Ignácio, propondo um roteiro para a nova produção do diretor. Entretanto, o roteiro expressava a realidade vivida pelos protagonistas enquanto jovens e, muito mais do que isso, desencadeava revelações alarmantes. Como é normal nas obras de Almodóvar, nem todos são o que aparentam ser.

As cálidas cenas entre homossexuais, travestis e o diabo a quatro servem apenas para polemizar o filme, artimanha inteligente utilizada para atrair o público e a crítica. E deu certo. A cena da piscina é considerada uma das melhores sacadas do cinema mundial.

O filme possui enredo não-linear, o que leva o espectador a confundir (ou relacionar) ficção e realidade. É uma verdadeira homenagem de Almodóvar ao cinema noir, no qual surgem descobertas inimagináveis advindas de um passado sombrio. Há um filme sendo produzido dentro do próprio filme e, a partir daí, aparecem revelações surpreendentes, no melhor estilo polêmico de Almodóvar. É uma obra para se assistir de olhos bem abertos, afinal, todos usamos máscaras.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O poder da verdade jornalística




Washington, 1972. Cinco homens invadem o edifício Watergate. Para os jornais, o fato parecia apenas mais uma matéria a ser estampada nas páginas destinadas às ocorrências policiais. No entanto, os aparentes “ladrões” se distinguiam dos demais: usavam terno e gravata. Esta característica despertou a atenção da equipe do jornal The Washington Post. Os jornalistas Carl Bernstein e Robert Woodward foram designados, dentre toda a equipe, para realizar a cobertura do misterioso caso.

Com o passar do tempo, o quebra-cabeça foi sendo montado milimetricamente. Até que, por meio de uma apuração que serve como referência para a prática jornalística, concluíram que a invasão estava relacionada a um esquema de corrupção e espionagem que forjaria a ascensão presidencial de Richard Nixon ao segundo mandato.

O episódio serviu de base para a produção do filme “Todos os homens do presidente” (All the presidents men), conduzido por Alan Pakula em 1976. O longa-metragem acompanhou todo o processo de apuração de Bernstein e Woodward, interpretados respectivamente por Dustin Hoffman e Robert Redford. O filme sobreviveu ao tempo, convertendo-se em um clássico que vale como uma verdadeira aula de jornalismo investigativo.

A parceria entre os profissionais deve ser considerada como uma das causas da bem sucedida cobertura. No início, por exemplo, nota-se que Bernstein detinha mais experiência profissional em detrimento de Woodward. No entanto, isto não coloca em xeque e união de ambos. A experiência de um auxilia o outro, visto que o objetivo era único: fazer com que o produto final (a notícia) fosse divulgado da melhor forma.

O foco do filme foi demonstrar os processos da investigação jornalística. O caso era extremamente obscuro, o que exigia dos jornalistas muita cautela; qualquer deslize resultaria em equívocos e informações distorcidas. A invasão a Watergate envolvia importantes segmentos do poder norte-americano; qualquer fonte que tivesse conhecimento dos fatos estava em risco. Os profissionais souberam preservar seus entrevistados, atendendo aos preceitos éticos que incidem sobre o sigilo das fontes.

À medida que as informações eram apuradas, passavam pelo crivo do exigente editor. Inúmeros textos foram vetados ou reduzidos, visto que a empresa jornalística prezava pela veracidade e consistência das informações. Esta preocupação com a transparência resultou em matérias emblemáticas, capazes de moldar o pensamento da população americana acerca de seus governantes.

O longa-metragem comprova que o jornalismo tem a possibilidade de transformar a realidade, arquitetando o pensamento de uma população, sem manipulá-la. No caso Watergate, em momento algum o The Washington Post revelou pontos de vista. As informações apuradas apenas foram transmitidas. Coube a sociedade americana concluir o que se passava por detrás das paredes da Casablanca, tendo como pano de fundo as descobertas propagadas pelo jornal.

Confira trailer do filme:







(*) Resenha originalmente produzida como atividade avaliativa da disciplina Jornalismo Especializado, ministrada pela jornalista Ayne Salviano, no sétimo semestre do curso de comunicação Social com habilitação em Jornalismo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Sem Máscaras: De Olhos Bem Fechados

O texto abaixo foi publicado na edição de 20 de dezembro no jornal Folha da Região. Confira:





Existe uma linha tênue que segrega sonho e realidade. Relações sociais se dão por meio de máscaras capazes de ocultar a imperfeição humana. Absolutamente nada é o que parece ser. Estas são algumas das temáticas utilizadas por Stanley Kubrick em seu último trabalho, “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut, EUA, 1999).

A narrativa é lenta, estratégia utilizada por Kubrick para levar o espectador a adentrar-se ao íntimo de cada personagem retratada. Alice (Nicole Kidman) e Bill (Tom Cruise) representam um típico casal americano aparentemente perfeito. Após uma discussão, a mulher, sob efeito de entorpecentes, revela ao marido que já teve fantasias sexuais com outro homem. O fetiche jamais foi consumado, mas a revelação desencadeia em Bill um estado de frenesi.

A discussão é o mote para que o bem sucedido médico passe a vagar pelas ruas da excêntrica Nova York com o intuito de se recompor. A partir daí, Bill se depara com uma série de situações surreais, inusitadas e perturbadoras, que o levam a uma louca “viagem” pelos instintos humanos. Absolutamente nenhuma personagem que cruza o caminho do protagonista detém a virtude da sanidade.

A noite de Bill é o ponto crucial no qual Kubrick apresenta sequências dotadas de mistério e perfeição. Com elegância sem precedentes na história do cinema, é revelado um macabro ritual erótico-religioso. Na celebração, todos os participantes se ocultam por meio de máscaras. A orgia ritualística é cuidadosamente retratada. Não existe espaço para vulgaridades. A intenção aqui é demonstrar seres humanos literalmente despidos, sem as máscaras da hipocrisia.

O mistério é latente a cada cena. Os diálogos longos são acrescidos de trilha sonora milimetricamente bem selecionada, capaz de gerar apreensão. O som das insistentes marteladas nas teclas de piano somado à iluminação enigmática faz de “De olhos Bem Fechados” uma produção de inquestionável peculiaridade.

Não é um filme para se ver uma vez só, dado o fato de estar a anos-luz de distância das produções clichês de fácil compreensão que têm dominado a indústria cinematográfica mundial. Um grande drama psicológico que revela características inerentes a qualquer bom samaritano. Uma obra prima que induz o espectador a desconstruir estereótipos sobre si mesmo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dica de Cinema


Dogville: Repressão Social


Uma cidade surreal, mas ao mesmo tempo um retrato da sociedade contemporânea. Habitantes aparentemente agradáveis, mas que ao decorrer do tempo se mostram completamente insanos, ou melhor, humanos. Acrescente aí uma bela e misteriosa mulher fugitiva da máfia. Bem vindo ao excêntrico mundo criado por Lars Von Trier: Dogville.

Instigante, excêntrico e perturbador, o filme apresenta uma pequena cidade povoada por nada mais do que uma dezena de moradores. A história se passa na década de 1930, época na qual o mundo sofria as mazelas da grande depressão. Grace (Nicole Kidman), a jovem fugitiva, chega a Dogville completamente atordoada. Eis que conhece Tom (Paul Bettany), um introspectivo intelectual que lhe oferece abrigo. Como forma de pagamento pela hospitalidade oferecida, a moça faria trabalhos para os moradores da comunidade. No início tudo ocorre da melhor forma possível, mas a vida de Grace estava a um passo de se tornar um grande pesadelo.

Laços fraternos de amizade são construídos com os moradores de Dogville. Porém, conforme surgem algumas investigações por parte da polícia acerca do paradeiro da moça, o que se vê é uma absurda transformação de personalidade em cada um. O lado sombrio é retratado de forma sábia, denunciando o fato de o ser humano ser um rol de dualidades. Como se trata de Trier, não é preciso dizer o que Grace enfrentará no decorrer do filme. A temática apropria-se de conteúdos polêmicos como a restrição da liberdade, abuso sexual, trabalho compulsório, traição e sadismo.

O diretor tem uma capacidade ímpar de quebrar estereótipos impostos por produções hollywoodianas. Assim como em “Dançando no Escuro”, o lado sombrio das personagens, tal como suas friezas, dilui-se em enredos mesclados com drama e humor negro.

O que mais chama a atenção em Dogville é o ousado espaço cênico. A simplicidade é tanta que à primeira vista passa a impressão de que o orçamento da produção sofreu cortes. Mas a fórmula funcionou, visto que a singeleza aflora o estado de apreensão no espectador. Analisando o surrealismo cênico, pode-se denotar que a intenção do diretor foi equiparar a vida, bem como suas relações, a um verdadeiro teatro. Inteligente metáfora.

A mistura de elementos teatrais e literários sobrepõe-se a qualquer necessidade de cenografia. O cenário invisível, sem precedentes no cinema, proporciona uma vista geral dos coadjuvantes em cena, sem destoar da narrativa principal. Ao mesmo tempo, escancara a essência de cada personagem, levando o público a analisar com olhos clínicos a desumanidade que aflora no íntimo de cada um.

Diversas leituras podem ser feitas a respeito de Dogville. Cada espectador tira suas próprias conclusões ao analisá-lo. Não é um filme para ser visto apenas uma vez. A impressão que deixo, é que se trata de uma obra sobre o comportamento humano e suas discrepâncias. Faz pensar a respeito da vida em comunidade e nas aceitações de regras impostas por grupos. Desertores de leis, em qualquer sociedade, sofrem represálias. Em Dogville não é diferente. Mas até que ponto o respeito a dogmatismos não passa de mero jogo de interesse e de oportunidade para exteriorizarmos o que temos de mais sujo? É assistir para compreender.

Confira Trailer do filme:


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dançando no Escuro


A Vida tal como um Trágico Musical


O polêmico diretor Lars Von Trier sempre aspirou por obras fortes e perturbadoras. Seu trabalho de cunho popularesco intitulado “Dogville”, já dava conta de tal realidade. O filme protagonizado pela, até então, desacreditada atriz Nicole Kidmam, foi uma cruel crítica ao tão defasado “american way of life”. O fato de a citada obra ter me impressionado, levou-me a procurar um famoso filme do diretor chamado “Dançando no Escuro” (Dancer in the Dark, 2000).

O primeiro fator a ser constato é a escolha da excêntrica cantora islandesa Björk para o papel principal. Confesso que a princípio, estava cético com relação ao trabalho dela, mas no decorrer do filme, todos os meus estereótipos foram por água abaixo. Se fosse interpretado por outra atriz, o papel da sonhadora Selma não teria a mesma força.

Vamos ao enredo: o filme se passa em 1964. Selma é imigrante do leste europeu que se muda para os Estados Unidos acompanhada de seu filho, em busca de uma vida digna. No entanto, Selma é portadora de uma doença hereditária que a deixará cega em pouco tempo. Mesmo com esta limitação, a moça trabalha em período integral em uma fábrica com o objetivo de juntar dinheiro para pagar a cirurgia do filho, que sofre do mesmo mal. Cercada de sofrimentos exorbitantes, Selma enxerga a vida como se fosse um grande filme musical, que sempre tem um final feliz. Devaneios se tornam sua válvula de escapa mediante momentos de angústia.

A versatilidade de Björk (que afirma ter sofrido muito nas garras de Von Trier) é explorada ao máximo. O filme intercala o eixo narrativo com números musicais interpretados pela personagem central, que se aliena do que está vivendo e brilha em musicais imaginários dignos da broadway.

Como de praxe nas películas do diretor, a crítica ao modelo norte-americano de governar é evidente. O fato de Selma ter ido ao país em busca de soluções para seu problema, desencadeia um final trágico que causa angústia no espectador. Trier é impiedoso com sua personagem central, que talvez possa ser um reflexo da maioria dos americanos.

Björk está extraordinariamente perfeita como Selma. Sua inexperiência como atriz desencadeia uma peculiar espontaneidade. Além do mais, sua expressão inocente somada a voz de menina, contribuem com o teor deprimente do filme, algo sem precedentes no cinema hollywoodiano.

Confira abaixo o trailer oficial do filme e a performance da excêntrica Björk entoando Cocoon ao vivo:




segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Dica de Cinema


Mais que um Show de Imagens


Celulares de última geração, redes de relacionamento como Orkut, Twitter, Facebook, etc. Definitivamente a sociedade contemporânea está longe de conhecer o real significado do termo privacidade. A cada dia, surgem novidades no mercado tecnológico. O objetivo: proporcionar comodidade à vida. Mas vale a reflexão: tamanho avanço é benéfico ou prejudicial? É justamente esta a temática do eletrizante filme “Controle Absoluto” (Eagle Eye, EUA/Alemanha, 2008).

Produzido por Steven Spielberg e conduzido por D.J Caruso (“Roubando Vidas” e “Tudo por Dinheiro”), o filme, estritamente comercial, enche a tela com um estapafúrdio show de imagens surreais. O exagero cênico serve justamente para ilustrar os estragos que a tecnologia pode causar quando se volta contra seus criadores.

O enredo é simples. Jerry Shaw (Shia Labeouf, de “Transformers”) é um sujeito pacato, afundado em dívidas, que trabalha em uma loja de copiadoras. Certo dia, Jerry recebe a notícia de que seu irmão gêmeo, militar aplicado e cidadão americano convicto, acaba de falecer. Após o funeral, a vida do homem passa por uma incrível reviravolta. Tudo começa com sua conta bancária: mais de 700 milhões de dólares são depositados, sabe-se lá por quem. Em seu apartamento, uma estranha encomenda: arsenais de guerra. Tudo isso somado a estranhos telefonemas de uma misteriosa voz feminina que passa a dar ordens ao moço.

Paralelamente a Shaw, está Rachel (Michelle Monaghan, de “O Melhor Amigo da Noiva”), mãe divorciada e bem-sucedida na carreira. Certo dia, Rachel também recebe a ligação da estranha voz feminina, que passa a transmitir ordens que, se não cumpridas, acarretariam na morte de seu filho. A partir daí, os destinos dos pacatos cidadãos americanos se cruzam.

Clichês que dominam os filmes do gênero são escancaradamente aproveitados. Apesar disso, a premissa é perfeita, ao discutir o monitoramento virtual que vivemos. Uma agência de inteligência criada pelo governo seria responsável pela maior emboscada da história: o assassinato do presidente dos Estados Unidos. O diferencial da hecatombe é que seria totalmente virtual, o que nos acena a um risco iminente relacionado ao avanço tecnológico.

A abordagem de teorias conspiratórias faz com que o filme não seja simplesmente uma obra inacabada com imagens de ação, muito pelo contrário. Críticas ao american way of life são perceptíveis, à medida que a paranoia americana se evidencia. No caso do filme, a nação do Tio Sam, com sua agência de inteligência, seria responsável pela autodestruição. Será uma crítica ao sistema Bush de governo? Cabe ao espectador atento às entrelinhas desvendar. É muito mais do que um show de imagens.

Confira Trailer de lançamento do filme:



Título Original: Eagle Eye
Recomendação Etária: 14 Anos
País de Origem: EUA/Alemanha
Gênero: Drama/Suspense
Tempo de Duração: 117 minutos
Estúdio/Distrib.: Paramount Pictures do Brasil
Direção: D.J Caruso

Texto idealizado como Atividade Avaliativa da disciplica Jornalismo Online e Novas Tecnologias II, ministrada pelo professor e Jornalista José Marcos Taveira.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Dica de Cinema


Hilário. É como se pode chamar o novo filme da estrela Sandra Bullock, “A Proposta” (The Proposal), ainda em cartaz nos cinemas da região. É inegável que clichês dominam a comédia romântica. No entanto, são aproveitados com primazia, de modo que rir se torna inevitável. O par romântico formado por Bullock e Ryan Reynolds esbanja versatilidade. O resultado: sucesso absoluto.

Dirigido por Anne Fletcher, o filme conta a história de Margaret, executiva austera de uma bem sucedida editora. Ela é o tipo de mulher implacável, sem piedade de ninguém. Na empresa, seu braço direito (e também esquerdo) é Andrew.

Tudo caminha bem para a repressora Margaret. Eis que certo dia, a mulher, de origem canadense, se vê na iminência de ser deportada para seu país natal. A solução: casar-se imediatamente com algum nativo para prosseguir seu trabalho como editora na renomada empresa. A partir daí a confusão está armada! O pretendente escolhido é nada mais nada menos que o submisso Andrew.

Para dar validade ao suposto casamento, o “casal” precisa conhecer absolutamente tudo um do outro. Para tanto, Margaret viaja com Andrew para o Alaska, com o intuito de conhecer a família do futuro cônjuge.

O filme traça de maneira inteligente, o perfil de cada personagem. Gera a discussão de que “quanto maior a armadura, mais frágil é o ser que a habita”. A executiva impiedosa, na verdade, não passa de uma criança solitária, ao passo que o submisso secretário é um homem forte amparado por pilares firmes, a família. O paradoxo entre ambos os difere, mas ao mesmo tempo, os aproxima. É diversão garantida. Eu recomendo!

Confira Trailer do filme:

sábado, 1 de agosto de 2009

DICA DE CINEMA



















LATTER DAYS: Fé x Homossexualidade

Vivemos em uma sociedade hipócrita. Simplesmente atuamos, como verdadeiros atores sociais que escondem as imperfeições da face por meio de maquiagens e máscaras. Isso não é novidade para ninguém. Nosso modo de ser, agir e pensar passa pelo crivo de dogmas religiosos, relações interpessoais, mercado de trabalho, universidades, dentre muitos outros elementos sociais. Existe autenticidade? Quem ou o que realmente somos?

Com base em tal perspectiva, podemos analisar o filme “Latter Days” (2003) como uma obra que tenta desmascarar a hipocrisia social. A produção provocou controvérsias antes mesmo da estreia nos cinemas americanos, recebendo intensa censura devido à complexidade do tema abordado. Tal repressão apenas corrobora o teor hipócrita de uma sociedade mascarada.

O filme narra a saga de Aaron Davis(Steve Sandvoss), jovem Mórmon confuso no que diz respeito à própria orientação sexual. Único filho de uma família conservadora, Aaron se muda para Los Angeles para desempenhar seu papel de missionário. Paralelamente ao tradicional Aaron, temos Christian (Wes Ramsey), homossexual assumido cuja vida se resume a festas e promiscuidades na grande Los Angeles. Vidas paralelas que se cruzam por ironias do destino.

Aaron passa a morar no mesmo condomínio que Christian. A cada encontro, a atração se estampa no olhar. Simples gestos dão a entender que o interesse é recíproco. No entanto, na primeira oportunidade de contato físico, Aaron se deixa dominar pela incerteza. Mais tarde, o atrito se transforma em uma delicada paixão.

Em uma ocasião, os demais missionário Mórmons flagram a relação entre os dois jovens. O fato acarreta sérias consequências a Aaron, inclusive sua excomunhão. A partir daí o filme gira em torno da persistência de Christian em procurar e recuperar seu grande amor. O preconceito e a repressão familiar são ressaltados a cada instante. Paradoxalmente, todo o amor e zelo que Aaron recebia da família se converte em asco e vergonha quando a descoberta vem à tona. Uma família de referências e confianças jamais poderia aceitar um filho homossexual, tanto é que não medem esforços para “curar” Aaron. Os obstáculos a serem enfrentados pelo dois são intensos e dolorosos.

“Latter Days” conflui sensualidade, sensibilidade, drama, comédia e romance. É um filme de densidade rara ao abordar as discrepâncias existentes entre religião e homossexualidade, focando a hipocrisia e o preconceito de uma forma jamais vista no cinema mundial. Fica a pergunta: Será que um Deus bondoso e compassivo puniria um filho cuja vida é propagar a fé, unicamente pelo fato de este ser homossexual? É o que a obra almeja responder.

Confira trechos do polêmico filme:


domingo, 24 de maio de 2009

Desgraçadamente repulsivos


Um soco no estômago. Asco, mal-estar. Uma confluência de sensações que variam do nojo ao lirismo. A mente se confunde. Escárnio e sensualidade se misturam de maneira jamais vista na história do cinema mundial. O filme “Saló ou os 120 Dias de Sodoma”, dirigido pelo mestre italiano Pier Paolo Pasolini, está a anos-luz do cinema convencional de Hollywod. 

A obra idealizada em 1975 gerou repulsa na sociedade italiana, sofrendo intensa censura por parte das camadas conservadoras. Não seria para menos. Pasolini tinha por meta escancarar a sociedade fascista orientada por prazeres, tortura e humilhações em diversas facetas. Se o objetivo era chocar, podemos dizer que o diretor o conquistou. Em uma catarse explícita e incômoda, o filme extrapola o campo das ideias, fazendo que o impacto também seja sentido no estômago. Blockbusters ao estilo “Jogos Mortais” não passam de contos de fadas se comparados a “Saló”.

 Ano de 1944. A província italiana de Saló está dominada pelo fascismo. Representantes do clero, nobreza, justiça e política resolvem recrutar dezesseis jovens exemplares e perfeitos para passar uma jornada vivendo em um palácio isolado no Marzabotto, juntamente com guardas, criados e garanhões. Além deles, quatro mulheres de meia-idade acompanham a jornada. 

Os jovens selecionados seriam contemplados a viver um circo de horrores, servindo aos desejos escatológicos e animalescos dos representantes do poder. Submissão. Depravação. Sexo. Violência. O grupo é forçado a satisfazer os porcos desejos de seus superiores. A tortura não se restringe somente à aspectos físicos. Além da submissão, são forçados a ouvir as pervertidas histórias diabolicamente narradas pelas damas de meia-idade ao som infernal de um piano. Os contos serviriam de estímulo para a consumação dos patológicos prazeres carnais.

Durante a estadia no palácio, os jovens passariam por três círculos: o Círculo das Manias, o Círculo da Merda e o Círculo de Sangue. Nada é mais repugnante do que o círculo da merda. Utilizando o argumento de que a dor somada a sujeira aumenta a satisfação e o prazer, os algozes obrigam seus súditos a saborearem, deliciosamente e com bom apetite seus próprios excrementos. A expressão mangiare é difícil de ser esquecida. Humilhação sem precedentes na vasta história do cinema. 

Focado em teorias de mestres como Foucalt e Nietzsche, Pasolini ressalta polêmicas teorias como a transgressão de valores e dignidade humana. Não surpreende o fato de alguns jovens recrutados pelos torturadores fascistas demonstrarem carinho pelas criaturas opressoras, a ponto de se sentirem satisfeitos em servir como objeto de prazer. Um filme estarrecedor, alarmante e que, acima de tudo, leva a pensar sobre o mal intrínseco a espécie humana. 

Saló - Itália/França, 1975, Drama, 18 anos

domingo, 19 de abril de 2009

Dica de Cinema


A face da opressão

Instintos animalescos estão aprisionados no íntimo de todo ser humano, e podem ser libertados mediante circunstâncias opressoras. Talvez este argumento possa justificar a ação de criminosos que afligem a sociedade contemporânea. Provavelmente são pessoas que, desprovidas de oportunidades e excluídas do meio social, optaram pelo crime como maneira de sobrevivência. Este é o ponto de partida que sustenta o polêmico Monster – Desejo Assassino (Monster).

O drama dirigido por Patty Jenkins narra a trajetória da primeira serial killer dos Estados Unidos. Aileen Wuornos, interpretada por Charlize Theron, foi uma mulher com a vida destruída desde a infância. Aos treze anos, Lee, como era chamada, foi vítima de estupro. A partir daí, completamente abandonada pela família, ingressa na prostituição, considerada pela jovem uma maneira fácil de conseguir verbas para sobreviver, digamos, “dignamente”.

Com o passar dos tempos, Lee muda-se de Michigan para a Flórida, onde conhece Selby Wall (Christina Ricci) garota mimada que, devido ao fanatismo religioso dos pais, mascara a homossexualidade. O primeiro encontro com a frágil jovem desperta em Lee um sentimento sem precedentes. Apaixonam-se rapidamente, e passam a viver um tórrido romance.

Para conseguir dinheiro e proporcionar bem-estar à namorada, Lee continua a se prostituir. No entanto, uma noite paradigmática muda completamente os rumos da história: um cliente a humilha, a estupra e passa a torturá-la. As cenas são chocantes. A prostituta reage e liquida o opressor.

Após o fatídico episódio, Aileen Wuornos decide mudar de vida. Sai à procura de emprego, entretanto, por não ter sido beneficiada com regalias essenciais ao sucesso profissional de qualquer pessoa, é ridicularizada antes mesmo de iniciar as entrevistas. Completamente desorientada e, preocupada em proporcionar vida digna ao “amor de sua vida”, Lee retorna à prostituição.

Os traumas falam mais forte. Com o pensamento invicto de que todos os indivíduos transcendem o bem e o mal, Lee extermina todos os clientes que considera indignos. Os crimes, para ela, não passavam de meros artifícios de sobrevivência. E mais: se estava nessa vida, era única e exclusivamente pelo amor sem igual que sentia por Selby. Os rumos da história são surpreendentes.

A sensual Charlize Theron desapareceu para dar lugar a uma figura que representava a verdadeira face da incerteza. A beleza da atriz foi suprimida pela imagem de uma criatura cuja vida sempre foi um fracasso. Os poucos momentos de felicidade foram vividos ao lado de Selby. O amor entre as duas mulheres abandonadas e oprimidas convertia-se em força que as mantinha vivas, uma em razão da outra. De um lado, a fragilidade de uma jovem aprisionada pelos pais em uma “torre de marfim”; do outro, uma prostituta triste e desamparada, sem rumos na vida, cuja moral e essência foram roubadas por sequestradores de almas. Criaturas distintas, mas paradoxalmente semelhantes.

Charlize recebeu, em 2004, o Globo de Ouro de Melhor atriz pela interpretação da personagem real. Monster – Desejo Assassino é um filme que faz pensar sobre até que ponto os instintos inerentes à condição humana podem ser resguardados mediante situações degradantes. Fica a questão: após inúmeras humilhações, são justificáveis os crimes cometidos por Aileen Wuornos?

Título Original: Monster

Ano de Produção: 2003

Elenco: Charlize Theron, Christina Ricci, Bruce Dern, Scott Wilson, Lee Tergesen.

Gênero: Drama/Suspense

Classificação: 18 anos

Direção: Patty Jenkins

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Inesquecivelmente aterrorizante


O confinamento é capaz de gerar diversas consequências. Loucura. Cólera. Depressão... Este é o argumento que conduz um dos filmes mais perturbadores da história do cinema. O Iluminado (The Shining, 1980), dirigido por Stanley Kubrick com base no livro homônimo do mestre do suspense Stephen King, narra a trajetória de Jack Torrance (Jack Nicholson), pai de família que consegue uma vaga para trabalhar como zelador no hotel Overlook, nas montanhas do Colorado (EUA). No entanto, Torrance não imaginava no que resultaria esta tentadora oportunidade.

Durante o inverno, o local se torna inacessível. Era tudo o que Jack desejava. Escritor frustrado, o homem necessitava de algum período isolado para dar continuidade a um livro. Na entrevista de emprego, o gerente do hotel alerta Torrance sobre a possibilidade de o confinamento vir a causar crises de claustrofobia. Além disso, o avisa que um antigo zelador chamado Charles Grady, dominado pela cólera do isolamento, assassinou brutalmente a mulher e as filhar, cortando-as em pedacinhos com um machado, suicidando-se em seguida. As informações não desanimam Torrance, que juntamente com a esposa Wendy (Shelley Duvall) e o filho Danny (Danny Lloyd), aceita o desafio de viver uma temporada no imenso hotel.

O garotinho Danny possui uma peculiaridade: é capaz de conversar com Tony, um amigo imaginário que “habita em sua boca”. Em determinado momento, Tony avisa Danny de que coisas terríveis o aguardam no hotel. Uma visão aterroriza o garotinho: enxurradas de sangue saem pelo vão das portas de dois elevadores. Estas imagens aparecem diversas vezes no filme, acompanhadas de uma trilha alucinante, causando arrepios no espectador. O cozinheiro do hotel, Dick Hallorann (Scatman Crothers) nota que Danny, assim como ele, possui o dom da telepatia. Em uma conversa com o menino, Hallorann diz que pessoas com tal dom, são chamadas de iluminadas (shinning).

Passado algum tempo, a saúde psíquica de Jack se deteriora progressivamente. Alucinações o perseguem com frequência. Esta é a grande dúvida do filme: as aparições são sobrenaturais ou meras projeções causadas pelo estado frenético de Jack Torrance? Pois bem, a partir daí o terror ganha espaço na obra de Kubrick. Sempre através de exageradas e assustadores trilhas sonoras, as cenas de perseguição se tornam eletrizantes. O estopim se dá quando Jack flagra a esposa bisbilhotando os rascunhos de seu livro. São centenas e mais centenas de laudas contendo uma estranha frase: “Muito trabalho e nenhuma diversão fazem de Jack um garoto estúpido” (All work and no play makes Jack a dull boy). Colérico, Jack começa a perseguir a mulher dizendo que vai matá-la. Ela o golpeia e ele rola a escadaria do salão do hotel, machucando o tornozelo. Wendy o arrasta até a despensa e o tranca no local.

O dualismo sobrenatural/realidade acarreta mais dúvidas quando um homem, supostamente Charles Grady, no caso já morto, ajuda Jack a sair do local para cumprir “a missão”: exterminar a mulher e o filho. Se tudo era produto de crises claustrofóbicas, como uma “miragem” poderia ajudá-lo?

Pois bem, quando Jack sai do porão segurando um machado para “cortar a mulher em pedacinhos” temos uma das cenas mais marcantes da história do cinema mundial: ao quebrar parte da porta Jack indaga a frase: “Querida, aqui é o Johnny” (Here’s Johnny!) A expressão de Nicholson e o desespero transmitido por Shelley Duvall são inesquecíveis.

O Iluminado é um desses filmes de terror que causam espanto devido à intensidade na interpretação dos atores, trilha sonora, iluminação e movimento de câmeras. É a típica obra de Kubrick, diretor cuja característica perfeição está em primeiro plano. Tanto é que diversas cenas foram descartadas prestes a obra ser lançada. Dizem também que o diretor tentou fazer com que a atriz Shelley Duvall tivesse o mesmo estresse da personagem, e não mediu esforços para isso: a mulher foi obrigada a gravar uma cena 127 vezes! Mas o resultado esta aí! Uma obra perturbadora e difícil de ser esquecida. Eu recomendo!

Confira um dos trechos mais marcantes:


domingo, 18 de janeiro de 2009

Dica de cinema: "De olhos bem fechados"

Instintos à flor da pele

Profissionais da psicologia afirmam que a subjetividade humana é formada por três instâncias intituladas id, ego e superego. O ego corresponde ao próprio eu, que sofre as ações das demais instâncias. O id relaciona-se aos mais profundos e animalescos instintos; o superego, por sua vez, age de maneira a equilibrar o ego para que não sofra as conseqüências das ações do id. Mas às vezes, é difícil fazer com que os instintos dominados pelo id não sobressaiam às regras morais pré-estabelecidas pelo superego. Talvez seja este o motivo de todo o conflito que permeia um dos filmes mais polêmicos e perturbadores da história do cinema mundial: De olhos bem fechado (Eyes wide shut).

Gravado em 1999, o último filme dirigido pelo mestre Stanley Kubrick (de Laranja Mecânica e O Iluminado) narra os conflitos internos vivenciados pela sociedade americana. A partir do casal Bill Harford (Tom Cruise) e Alice Harford (Nicole Kidman), a antologia explora a deplorável condição do american way of life. Absolutamente todos se deixam levar pelos instintos, que são encobertos pela máscara de atores sociais.

Tudo começa a partir de uma confissão: Alice, sob o efeito de drinks e baseados, revela ao marido que já o traiu em pensamento; ela afirma que o desejo por um homem que a seduziu só não foi consumado devido ao fato de ela ser casada, porém, pensou em abandonar a vida de mãe de família para compensar seus desejos. A confissão desperta em Bill uma sensação de frenesi.

Após a confissão, o telefonema de uma paciente faz com que o Dr. Bill perambule pela conturbada noite das ruas de Nova York. Sempre com a imagem da traição não consumada da mulher dominando seus pensamentos, o homem procura maneiras de se vingar. Porém, todas as tentativas se frustram.

Em um bar, Bill encontra um pianista, amigo de longa data, que fala a ele algo a respeito de uma espécie de sociedade secreta na qual acontecimentos estranhos acontecem. O pianista toca na tal casa todas as noites, porém, sempre com os olhos vendados. Imediatamente Bill se interessa pelo lugar. Para adentrar nas cerimônias da tal sociedade é necessário usar uma máscara e trajes sociais, além de conhecer a senha de acesso ao local. Bill Harford providencia tudo. Indubitavelmente as máscaras servem de pano de fundo para discutir a capacidade cínica do ser humano.

Em uma das cenas mais envolventes, Harford vai até a loja de fantasias para comprar seu traje. No lugar, depara-se com uma situação estranhíssima: a filha do vendedor estava consumando ato sexual com dois homens muito mais velhos! O pai, por sua vez, permitira a situação, é claro, em troca de dinheiro. O olhar de Harford para o ocorrido, uma confluência de horror e desejo, desperta uma sensação de asco no espectador. Talvez aí Stanley Kubrick atingiu uma de suas metas: revelar a decadência da moral humana. Absolutamente nenhuma personagem está livre de problemas psicológicos.

A partir daí o filme traz à tona as peculiaridades das obras comandadas por Kubrick, nas quais as compreensões estão embutidas em simples atitudes. Ao chegar ao local dos encontros da sociedade, Bill depara-se com um ritual belo e ao mesmo tempo perturbador e aterrorizante. Neste momento aspectos como o voyeurismo são escancarados. Em meio à orgia, em momento algum Bill trai a mulher. Ele age apenas como mero espectador. As cenas de sexo são idealizadas com perfeição. A música, o cenário e a coreografia corroboram para a não-vulgarização das cenas. Valem apenas como subterfúgios que desmascaram os mais profundos instintos e fantasias que dominam qualquer ser humano. Característica inerente à Kubrick.

Não demora muito tempo para que Bill seja descoberto pelos membros da seita. A ameaça de que se ele contasse o que viu a alguém sua família pagaria, leva o homem a um estado de alucinação. A partir daí, muito suspense e neurose passam a dominar a sensual trama.

De olhos bem fechados é o tipo de filme que causa mal-estar no espectador devido à intensidade das emoções representadas. Os momentos de silêncio no qual tudo é dito com o olhar, revelam a entrega total das almas dos atores capitaneados por kubrick. A trilha sonora também reforça o frenesi vivido pelas personagens e aumenta o impacto das seqüências. É o típico filme de Stanley Kubrick, capaz de adentrar profundamente na mentalidade humana, demonstrando com requinte o dualismo fantasia/realidade.


Confira um dos momentos mais marcantes do filme. A entrada de Bill Harford (Tom Cruise) no ritual da polêmica seita! Sequência perfeita! Reparem na trilha e na cenografia:



OBS: texto escrito seguindo os padrões da reforma ortográfica.