Às vezes penso que o mundo seria menos conturbado se o transformássemos em poesia. Se buscássemos em nosso íntimo a essência de nossos sentimentos e tivéssemos coragem e ousadia de extrair beleza dos momentos conturbados, seria mais fácil viver. No entanto, infelizmente a tendência típica do ser humano é colocar mais água onde a enchente já submergiu, aumentando assim o caos. A tranquilidade é uma virtude difícil de ser encontrada, pois se esconde em nós mesmos, em algum lugar inóspito. De tão inóspito, chega a ser aterrorizante pensar em explorá-lo.
Não é exercício fácil de ser feito, porém é necessário que saibamos silenciar nossos corações a fim de tentar entrar em contato com nosso eu interior. O silêncio faz bem, é terapêutico. Ao contemplar o silêncio, temos a capacidade de praticar as mais sublimes experiências. Somos capazes de nos desprendermos de nosso ego, buscando alcançar um novo jeito de ser.
Os diferentes estágios da vida exigem transformação e não é novidade para ninguém que tudo o que é novo gera certa apreensão. É normal temer o desconhecido. Todavia, é conhecendo o novo que nos desprendemos de ideologias enraizadas, mesquinhas e maniqueístas. O verdadeiro sábio é aquele que possui a convicção de que seus ideais são efêmeros, a ponto de serem transformados quando se tornarem obsoletos, dando espaço a outra forma de pensar.
Vivenciamos um período no qual a sede pelo conhecimento se tornou realidade. O povo passou a querer ter voz e vez nas tomadas de decisões capazes de modificar a realidade. Felizmente os algozes repressores, aqueles que detêm a maior camada do bolo social, estão perdendo espaço. A pedagogia do oprimido, utopia de Paulo Freire, vem se concretizando conforme o tempo passa.
Sonho com o dia em que as relações serão pautadas no respeito mútuo. Sonho com o momento em que poderemos encontrar a “terra prometida”, em verdadeiro processo de êxodo, rumo a terra onde jorra leite e mel. Nesta terra, mundo sonhado por mim e por tantos e tantas, tudo seria embasado no sonho louco dos poetas, no qual tudo gera beleza: as tristezas, as dores e, principalmente, as alegrias.
É no silêncio que eu, arquiteto de mim, desenho este novo mundo... Porém desperto: algo acontece lá fora. Saio de minha torre de marfim e volto à realidade. Lá no recôndito de meu ser prevalece uma pequena brasa esperançosa, prestes a incendiar-me por completo...
Sonhos e ideais estão refletidos também na arte... Preste atenção nesta belíssima letra: "Eu... Caçador de mim". Caço-me a todo instante...
domingo, 20 de março de 2011
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
De como mudei o percurso...

No clássico romance “Dom Casmurro”, Machado de Assis faz uma interessante observação quando afirma que é possível “ligar uma ponta a outra da vida”, no caso da obra, infância e velhice. Isso me fez pensar que a vida passa depressa e que viver é um grande desafio. Desafio árduo, na maioria das vezes.
De uns tempos para cá, tenho percebido que sei muitas coisas na teoria. Sei passar longas e cansativas lições de moral nas pessoas a minha volta. Vira e mexe vem alguém fazer uso de meus dons de psicólogo sem formação em Psicologia. No entanto, sou um teórico que possui extrema dificuldade em aplicar simples conceitos na prática.
A fórmula de meu sofrimento é mais complicada do que uma equação matemática. Tente entender, o motivo de minhas angústias encontram-se sempre no fato de ter que fazer escolhas que poderão incidir diretamente em algo já consolidado na minha vida.
São dois caminhos a seguir. Distintos em si, mas que podem transformar meu percurso. De um lado, aquilo que sou. Do outro, aquilo que posso vir a ser. Neste caso, uni duni tê não resolve. A emoção, tampouco. Preciso agir com uma razão fora do comum. Resultado: possibilidade de sucumbir em angústia!
No entanto, uma luz sempre me guia. A resposta está em mim, cabe parar, refletir, saber ouvi-la e compreendê-la. Desta vez a voz que daria a resposta berrava dentro de mim, mas eu fingia que não a escutava. O que me preocupava em atender ao clamor daquela voz era o que as pessoas ao meu redor iriam pensar. É típico do ser humano depositar expectativas nos outros. Tanto é que, de tanto se preocupar com a vida alheia, determinadas pessoas esquecem-se de viver. Machado também fala sobre isso quando relata que a mãe de Bentinho preconizara o futuro de seu primogênito antes mesmo deste nascer, prometendo aos deuses metê-lo no seminário.
Mas ganhei coragem e decidi ouvir a voz de meu coração (a voz que vem da alma) e não os murmurinhos do mundo afora.
Simplesmente adiei alguns planos. Na verdade, meu objetivo foi dar lugar a outros muitos planos que há tempos sonho em colocar em prática. Quem realmente me entende, aceita. Quem não me atende, pode pensar que sou tolo ou algo assim... Paciência. Apenas eu e somente eu sei o motivo de minha escolha. Uma coisa é certa: não desisto facilmente de meus sonhos... E são muitos!
domingo, 6 de fevereiro de 2011
A Burocratização da Vida
Confesso que possuo certa dificuldade com relação à burocratização da vida, acentuada pelo advento da mercantilização do ser humano. Na estúpida ótica capitalista, as pessoas passaram a ser vistas como meras geradoras de lucros e prejuízos. Enquanto isso, a dimensão humana de cada um cai no esquecimento. Daí provém a triste realidade: em alguns lugares, as pessoas são enxergadas como máquinas produtoras.
Para sobreviver no mundo em voga, é preciso que tenhamos certo “jogo de cintura”. Caso contrário, somos cortados pela raiz. Cabe-nos então vestir a máscara e aderir ao sistema. É muito simples, porém, paradoxalmente, árduo ao extremo. Durante todo o dia somos obrigados a vestir uma carapuça que esconde o que realmente somos. A partir daí, toda uma ideologia construída no decorrer de anos, passa a ser ocultada, dando lugar a uma personalidade diferente que parece ser controlada por controle remoto, visto que repete dogmas de forma metodologicamente compulsiva.
Infelizmente é necessário se adaptar, por mais difícil que seja. Tenho certa dificuldade em ignorar a dimensão humana dos fatos e considerar as pessoas apenas como bonecos manipulados que geram lucros.
Ao que parece, considerar a condição humana dos seres humanos é atributo de estudiosos de ciências humanas. Infelizmente os estudiosos das exatas foram condicionados a comportarem-se como máquinas e, por consequência, consideram o mundo a sua volta como tal. Longe de externar preconceitos. Não se trata de visão preconceituosa aquilo que experiências empíricas comprovam.
A sensibilidade das pessoas é expressa quando estas demonstram a capacidade de ler bons textos, ouvir boas músicas, assistir a bons filmes... E não simplesmente a lidar com números, valores e fórmulas... A essência humana é subjetiva, portanto, compreendê-la é privilégio de poucos.
Para sobreviver no mundo em voga, é preciso que tenhamos certo “jogo de cintura”. Caso contrário, somos cortados pela raiz. Cabe-nos então vestir a máscara e aderir ao sistema. É muito simples, porém, paradoxalmente, árduo ao extremo. Durante todo o dia somos obrigados a vestir uma carapuça que esconde o que realmente somos. A partir daí, toda uma ideologia construída no decorrer de anos, passa a ser ocultada, dando lugar a uma personalidade diferente que parece ser controlada por controle remoto, visto que repete dogmas de forma metodologicamente compulsiva.
Infelizmente é necessário se adaptar, por mais difícil que seja. Tenho certa dificuldade em ignorar a dimensão humana dos fatos e considerar as pessoas apenas como bonecos manipulados que geram lucros.
Ao que parece, considerar a condição humana dos seres humanos é atributo de estudiosos de ciências humanas. Infelizmente os estudiosos das exatas foram condicionados a comportarem-se como máquinas e, por consequência, consideram o mundo a sua volta como tal. Longe de externar preconceitos. Não se trata de visão preconceituosa aquilo que experiências empíricas comprovam.
A sensibilidade das pessoas é expressa quando estas demonstram a capacidade de ler bons textos, ouvir boas músicas, assistir a bons filmes... E não simplesmente a lidar com números, valores e fórmulas... A essência humana é subjetiva, portanto, compreendê-la é privilégio de poucos.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Histórias de vida...

Estou de volta!!! E retorno com as histórias provenientes de observações do cotidiano... O fato que segue, resulta de um momento especial.
A velha boneca...
Seu rosto carregava as marcas do tempo, mas seus sentimentos ainda giravam em torno de um sonho de menina. Ela tinha pouco mais de sessenta anos, no entanto, seu desejo era comum ao de meninas de pouca idade. Seu sonho de consumo era possuir uma boneca! Não importava a marca. O que queria era apenas ter a satisfação infantil de segurar no colo um bebê de mentira.
Seu rosto carregava as marcas da opressão. Ela, desde os oito anos, trocara as brincadeiras infantis pelo peso da enxada. Trabalhava com afinco na lavoura com o intuito de contribuir com o pão de cada dia. Enquanto suava, cantava com sua doce voz que conquistava a todos Não sei dizer se ela simpatizava com o ofício. Só sei que o fazia unicamente para escapar dos solavancos dos pais. A mísera renda conquistada diariamente era depositada em sua totalidade nas mãos calejadas de seus progenitores. Aquela pobre menina jamais conhecera os deliciosos sabores da infância. Talvez isso justificasse seu estranho desejo de, na velhice, possuir uma boneca.
Seu rosto carregava as marcas da felicidade. Sim. Clandestina, mas era felicidade. Uma espiritualidade tentadora ornamentava sua delicada tez. Todo o motivo daquela força radiante provinha de sua íntima ligação com Deus. Seus joelhos calejados em frente à imagem de Imaculada Conceição acompanhavam o delicado derretimento das velas compradas na mercearia da esquina. Talvez a luz que emanava daqueles pavios escondia algo mais profundo. A cera derretida talvez fosse resultado de toda a dor que aquela vida lhe proporcionava. Mas preferia irradiar como a luz do pavio, e ignorava a cera derretida.
Seu rosto carregava as marcas de um tempo que passa. E como passa. Casou-se, foi subserviente ao marido, como sempre aprendera a ser. Teve filhos, educou-os da mesma forma rígida como fora criada. Os viu crescer. Teve netos. Educou-os, de forma já não tão rigorosa como outrora, visto que carinho de avó é algo mais doce e grandioso. Viu os netos crescerem, graduarem-se e partirem. Viu seu marido partir para outra dimensão... Chorou. Percebeu que a vida é um ciclo que se repete...
Seu rosto carregava as marcas da sabedoria. Sabedoria com a qual aprendi a ser sábio. Sabedoria que me fez ser quem sou e acreditar na simplicidade da vida. Algo que me fez valorizar a simplicidade de pequenos gestos.
Hoje, a presenteei com uma simples bonequinha desprezada no camelô da esquina. Tão feia e fora de moda a pobrezinha que ninguém a olhava há anos, mas, não sei porquê, seu olhar me cativou. Resolvi dar de presente como forma de gratidão àquela mulher que me ajudou a construir meu Eu. Seu rosto carregou então, novamente, as marcas da felicidade...
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Como sempre digo, admiro a simplicidade das coisas. Neste primeiro post de 2011, não publicarei um texto meu. Mas compartilho com vocês a singela produção de meu amigo poeta Rômulo Gomes, que mora lá no Nordeste. O texto dele me fez sentir gosto de saudade... Apesar das diferenças entre uma criança do nordeste e outra do interior de São Paulo, vejo muitas coisas em comum, sendo a principal delas a capacidade de sonhar...
O tempo vem passando depressa. Olho para trás e vejo, já distante, aquela figura de menino tímido... Ele virou homem... Sinto sabor de saudade...
Gosto de Infância
Minha infância tem sabor do ciriguela tirado do pé antes do tempo para amadurecer mais rápido.
Tem sabor da manga verde com sal e melancia madura que vovô plantava no quintal.
Tem sabor da bolacha que vovó assava no leite, às vezes só na manteiga, meu café da manhã preferido.
Tem sabor da chuva que caia no fim da tarde.
Tem sabor da amarelinha que pulava no chão ainda ensopado em frente de casa depois do fim da chuva.
Minha infância tem sabor das reuniões familiares em volta da minha avó encima do pilão quebrando castanhas pra fazer a receita da família: doce de castanha de caju, hummm.
Tem sabor de acordar mais tarde no sábado e ir correndo pra frente da televisão preta e branca que só pegava a Globo, mas que era suficiente, pois a Xuxa me fazia viajar junto com ela.
Tem sabor das compras de fim de mês, onde vovó fazia a feira e me trazia balas, bolachas recheadas, um prazer a cada trinta dias.
Tem sabor das ventania que aparecia do nada quando mamãe terminava de varrer e passar o pano na casa de cimento grosso.
Tem sabor da água “doce” da barragem, única fonte que podíamos ter naquele momento.
Minha infância tem sabor das viagens com minha avó ao banco para tirar sua aposentadoria, onde eu ferozmente guardava seu lugar na fila, observava tudo e descobria o ambiente.
Tem sabor das férias de fim ano que logo dava saudades da escola e era tomado pela ansiedade de comprar o caderno novo na mercearia.
Tem sabor das brigas por motivos bobos de meu avô, que toda a rua de chão batido tomava conhecimento.
Tem sabor da minha primeira bicicleta (de adulto) roxa e nada moderna, mas que pra mim representava muito mais.
Tem sabor das fazendas, dos apartamentos, dos bares e restaurantes que minha imaginação criava no quarto da minha avó, quando todos dormiam depois do almoço.
Minha infância tem sabor do fim de tarde, quando ia pra casa da minha outra avó e pedia morrendo de vergonha um real ao meu avó que hoje não está mais comigo.
Tem sabor da roupa nova que essa mesma avó, na verdade bisavó, comprava pra mim no mês de outubro, mês das festas do padroeiro.
Tem sabor da rede estendida no meio da área ventilada, onde nos balançávamos sem compromisso.
Tem sabor do arco-íris que se formava na serra em frente de casa depois da chuva.
Tem sabor do barulho da água do rio que dava pra ouvir da calçada quando chovia forte no inverno.
Minha infância tem sabor da goteira que insistia em aparecer todos os anos.
Tem sabor do barulho fechado dos trovões e do medo de cair um raio pertinho dali.
Tem sabor da falta de luz, geralmente nos dias chuvosos, onde corríamos pra acender as velas e dormir mais cedo.
Tem sabor da novela da tarde do Vale Apena Ver de Novo, adorava assistir depois do Vídeo Show, eu não perdia.
Tem sabor das minhas caixas (literalmente) de livros, revistas e fotos de pessoas famosas que via na TV, guardadas comigo até hoje.
Minha infância tem sabor das fogueiras de são João que enchia a casa de fumaça e os olhos de vermelhidão.
Tem sabor do milho quente que nem sempre virava pipoca na panela de barro da vovó.
Tem sabor das manhãs onde plantávamos milho e feijão no roçado do quintal de casa, eu sempre quis participar.
Tem sabor da cadeira de balanço que era disputada por todos na calçada de ventilada .
Tem sabor de ir correndo pra o orelhão ver se os cartões que ganhara ainda tinham unidades – princípio de modernidade pra mim.
Tem sabor do bolo de aniversário feito em casa por minha mãe, com granulados coloridos e vela feita por mim mesmo.
Minha infância tem sabor das comemorações de domingo, com um refrigerante, um litro de pitu e um monte de copos na mesa – observava tudo, inclusive como se transformavam depois de beber umas e outras.
Tem sabor do molho do macarrão que eu sempre fazia e todos pareciam gostar, era o primeiro a “beliscar”.
Tem sabor da coalhada que era preparada desde à tardinha, e eu ainda acrescentava cuscuz de milho.
Minha infância não tem sabores importados ou exóticos, tem sabor da infância de qualquer criança pobre do interior do nordeste brasileiro. Criança que sonha como todas as outras, vai a escola, brinca, arenga. Criança que cresceu e por força maior, hoje volta aos tempos de criança e descobre que era feliz.
por Rômulo Gomes - Acadêmico do 6º período do curso de Letras da UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE - UERN
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Verdadeiro Feliz Natal*

Para os cristãos o Natal simboliza esperança. Em meio a um mundo caótico dominado por injustiças, tal expectativa regozija corações aflitos sedentos por uma presença edificante, expressa no nascimento de Jesus Cristo, o menino-Deus encarnado no meio de nós; aquele que veio para nos salvar.
Este período é marcado por simbologias que realçam o importante significado da festa. Decorações exorbitantes, mesas fartas e presentes caros conferem ao Natal status de glamour. Famílias economizam verba durante todo o ano para celebrar o Natal de maneira farta, independentemente da situação financeira. No entanto, qual será o pensamento que faz com que as pessoas anseiem por uma comemoração repleta de excessos? Ao que parece, levamos ao pé da letra a ideia de que Cristo renascerá e, portanto, desejamos recebê-lo da forma como um Rei merece, revestindo-O com os mais finos regalos.
Há uma série de equívocos por parte dos cristãos à medida que reduzem a figura divina à comercialização. Independente de qualquer crença, o transcendente ultrapassa os limites do cartão de crédito. Bom seria se celebrássemos o Natal considerando a simplicidade que o envolve. Desde seu nascimento em uma singela manjedoura, Cristo ostenta uma missão pedagógica: alertou-nos para a pobreza de espírito.
Em vez de celebrar o Natal por meio de exagerados adereços e desperdícios desnecessários, poderíamos aprender a valorizar a simplicidade dos momentos. Mais válido seria se nos atentássemos à singeleza e doçura dos pequenos gestos. Às vezes, um simples Feliz Natal acrescentado de um abraço vale muito mais do que qualquer presente caro ou mesa farta.
As tradicionais celebrações religiosas de Natal também poderiam se despojar de toda a riqueza que as envolvem e se colocaram ao patamar da simples manjedoura, que estava longe de possuir ornamentos talhados a ouro.
O Natal deve ser celebrado em sua verdadeira essência, de forma simples, porém rica em significados e espiritualidade revigoradora. Que não sejamos abduzidos por apelos comerciais que tendem a estimular concorrências e a gerar desigualdades. Talvez assim possamos pronunciar de forma verdadeira e íntegra a expressão “Feliz Natal”, que carregada nas entrelinhas traços humanos e significados divinos.
*Artigo de minha autoria publicado no dia 21/12/2010 no jornal Folha da Região
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
O tempo e suas loucuras. De como escrevo versos no livro da vida

Para meu desespero, percebi que o tempo passa rápido demais. O pior de tudo é que não podemos contê-lo. À medida que age, não há meios de segurá-lo. Pará-lo é impossível. Torná-lo mais vagaroso então, é utopia. Conforme passa, vem a inevitável ação sobre nós, homens. O transcorrer do tempo nos força a mudar de fase, o que inevitavelmente gera apreensão, angústia, medo. No entanto, por sermos condicionados a progredir, precisamos nos adaptar às agruras do tempo e aceitá-las. Cabe-nos, portanto, escrever primorosos versos no livro da vida.
Confesso que toda essa loucura me aflige. Olho para as pessoas a meu redor e vejo os estigmas produzidos pelo tempo. Mas, o mais perturbador: tenho espelhos em casa. Espelhos são como mediadores entre nós e a realidade. Ao olharmos, constatamos que o tempo também incide sobre nós. Seres humanos que somos, sofremos. Vivo, logo sofro. Porém, às vezes é tão fácil conter sofrimentos... Mas gostamos de sofrer; é inerente ao homem transformar goteiras em tempestades.
Chego ao final de mais uma fase. O medo de não sei o que é inevitável. Tenho medo, precisamente pela existência da expressão “não sei o que”. Nunca gostei de incertezas e muito menos de mudanças bruscas. Mas uma coisa eu sei: fiz tudo direitinho. No decorrer destes quatro anos de faculdade de jornalismo, passei por intensos processos de transformação (o tempo proporcionou alguns deles).
Dentre minhas várias manias, tenho uma em especial: demoro a pegar no sono. Enquanto ele não vem, fico matutando, matutando e matutando. Matuto sobre minha vida, sobre a vida dos outros, sobre a vida em si. Os minutos antes de dormir são aqueles nos quais posso arrancar as máscaras e ser eu mesmo. É meu momento. Um dos únicos em que tenho o privilégio de encontrar a mim mesmo.
Voltando a história da mania (me empolgo quando escrevo), a principal dela consiste no fato de fazer balanços gerais sobre minha existência. De uns tempos para cá isso tem se tornado frequente, talvez seja pelo momento de transição, enfim. Quem sou eu, o que fiz até o momento, a que vim, etc, etc, etc, são pensamentos envoltos nestas filosofias precedentes do sono. É meu momento de olhar para trás e ver que o tempo passou. É a hora em que vejo de longe o garoto assustado que outrora pisou pela primeira vez em um mundo diferente do que conhecia. É a vez de pensar sobre as pessoas que passaram pela vida deste garoto e depositaram algo de bom. Enfim, é o momento propício para agradecer a Deus e ao universo por ter vivido e chegado até aqui.
Aconselho a todos que tirem um tempinho pra pensar sobre a vida. Tais pensamentos cessam, pelo menos um pouco, a aflição gerada pela passagem do tempo. Inevitável que é, garante-nos a possibilidade de aproveitá-la ao máximo, plantando sementes que se tornarão suculentos frutos. Colhê-los é opção nossa; deixá-los apodrecer, também. Penso que tenho colhido os meus... Afinal, sempre fui um idealista... Talvez seja esta minha principal fraqueza: acreditar demais. Ou talvez seja qualidade, sei lá... Só sei que penso, logo escrevo e logo sofro...
Continuarei assim. Estou virando as páginas do livro de minha história consciente de que o autor principal sou eu mesmo. Novas conquistas estão por vir! Sejam bem vidas! Chegar até aqui foi uma grande vitória. Aprendi muito.
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