Ela estava sentada no banco da rodoviária naquela madrugada fria. Não me recordo o dia da semana. A manhã estava cinzenta, um tanto que deslocada do tempo. Apressado eu estava, mas aquele olhar triste me chamou a atenção e me fez parar por um instante e refletir. De onde vinha aquela criatura? Que histórias ela tinha para contar?
Seus cabelos brancos denunciavam experiência de vida. As mãos calejadas demonstravam longos tempos de trabalho intenso, a fim, talvez, de manter o sustento dos filhos. Será que ela tinha filhos? Por que será que estava ali, abandonada no frio? O que tinha deixado para trás? Será que alguém um dia já parou por um momento e a olhou nos olhos, como eu fiz naquele instante, mesmo que de forma rápida?
Na rodoviária vidas se cruzam de forma absurdamente veloz. Histórias de vida se esbarram toda hora! É um ir e vir permanente, no qual as pessoas chegam e vão embora... Medos, frustrações, alegrias e tristezas se confluem em uma confusão cósmica completamente surreal. Na rodoviária a vida se dá de forma desconecta e efêmera. Mas aquele rosto me cativou... Me fez parar pelo caminho corrido do meu dia e simplesmente contemplar. Foi rápido, mas a contemplei.
Contemplei seus cabelos brancos. Contemplei seus olhos marejados (o que será que já viram?). Contemplei sua frágil pele (o peso dos anos evidenciava-se). Devolvi a ela a condição de ser humano, pelo olhar humano que a concedi. A enxerguei com dignidade e respeito. Procurei imaginar o que já plantara e colhera nos jardins da vida, buscando respostas internas para os motivos que ocasionaram o extermínio de suas flores.
Ao compreender a fragilidade daquela mulher, me dei conta também de minha própria fragilidade. Tenho limitações inerentes a qualquer ser humano que sente vontade de mudar o mundo, mas não é capaz de fazê-lo. As faces do abandono daquele ser talvez sejam reflexos de uma sociedade injusta e excludente. Ou, talvez, seja motivo de desilusões da vida. Pois como diz a música, “cada um sabe a dor e a alegria de ser o que é...”
terça-feira, 21 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Pedaços de vida em minhas mãos

Meu desejo era agarrar nos braços dela e puxá-la de volta para a vida. Os últimos acontecimentos a fizeram sucumbir num estado de letargia outrora jamais experimentado. Antes dona de si, agora estava completamente derrotada. O motivo: roubaram dela sua essência, suas cores... A sequestraram simbolicamente, o que chega a ser mais abominável do que o sequestro físico. Quando se trata de sequestro da subjetividade, não existe valor que pague o resgate.
Ela e eu somos dois em um só ser. Nossas vidas se misturam a ponto de eu, inexplicavelmente, sentir as dores dela. Ela está em minhas mãos. Sou o responsável por redigir os versos que influem na vida dela. Sou dono dela. Se ela sucumbe neste momento, não existe outro culpado na história a não ser eu mesmo. O sentimento que tenho com relação a ela: pena. A meu ver, se trata de uma figura digna da mais sincera piedade, pois está em minhas mãos. Ao mesmo tempo em que quero tomá-la em meus braços como uma mãe embala um filho, tenho vontade de abandoná-la na escuridão, para depois ter a oportunidade de chacoalhá-la e agredi-la para que acorde para a vida.
Minha criatura sofre por minha causa, mas, não me sinto culpado por ter seu destino em minhas mãos. Para alguns isso pode ressoar como um sentimento sádico de minha parte, porém, minha falta de piedade com relação a esta criatura se deve única e exclusivamente pelas características dela que se assemelham a mim. As fraquezas dela são minhas fraquezas. Isso me causa angústia. Raiva.
A personagem que construí era dona de si. Sensata, perspicaz e inteligente, esbanjava simpatia e brilho por onde quer que passasse. As pessoas se sentiam bem ao estarem a seu lado. Desejavam tê-la como amiga, psicóloga, companheira. Todos tiravam proveito de sua inteligência ímpar e inestimável.
Gradativamente estas virtudes se transformaram na grande desgraça de minha criatura. Seu encanto a impedia de conquistar o amor. Todos a superestimavam como a pessoa perfeita. Tais rótulos foram os motivos de sua solidão. De tão perfeita que era, acreditava que tinha o direito de ser amada. Ela tinha amor para dar. E desejava depositar suas doses de afeto em alguém. Entretanto, jogaram seu amor às traças, que o corroeram.
Minha criatura era tão peculiar que tudo o que sentia, sentia em dobro. Era toda essência, toda sentimento. Se era para ser feliz, ficava feliz em dobro, mas, se a tristeza batesse à sua porta, ela escancarava para que a maldita entrasse e roubasse cada espaço dos cômodos de sua alma. Tola. Pobre tola...
Fraca. Ah, como minha criatura era paradoxal. A criei imponente, mas preferiu dar espaço para que roubassem dela o que tinha de melhor. Suas melhores cores foram levadas embora. Tornou-se inteira preta e branca. Incolor.
Como criador o que me resta fazer? Chacoalhá-la e trazê-la de volta para a vida. Reanimá-la. Apresentar um novo jardim cujas flores estão se abrindo para o sol. E dizer baixinho eu seu ouvido coisas do tipo: “você tem muito a oferecer... Feliz daquele que puder desfrutar de seu amor... O mundo precisa de você...”
Enfim, sou responsável pelo destino desta pobre criatura que desfalece sem brilho. Tolhi seu direito à vida, mas prometo reanimá-la aos poucos. Já tenho as tintas necessárias para devolver suas cores. Grande responsabilidade. Bela dádiva. Sou escritor de vidas...
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Nossas Palavras...

Palavras... Palavras transformam. Palavras têm o poder de expressar sentimentos verdadeiros, aqueles oriundos da alma. No entanto, Palavras são dialéticas. Ao mesmo tempo em que são vastas e profundas, são limitadas. De paradoxos são feitas as Palavras...
Se existe no mundo uma forma de se atingir o espírito, isto se dá por meio de Palavras. Foi este artifício utilizado até mesmo pelas primeiras civilizações, que utilizaram a Palavra de Deus para atingirem objetivos previamente traçados. É verdade que Palavra tem poder. Palavra pode manipular... Pode encantar... Mas também pode desencantar...
Para os poetas, as Palavras são ferramentas de trabalho. Para se praticar tal ofício, é necessário saber manejá-las com afinco. Palavras não são manipuladas manualmente, pelo contrário, apenas sentimentos podem agarrá-las e distribuí-las em seus devidos lugares...
Palavras são perigosas. Se colocadas em lugares errados então, nem se fala! O segredo que habita a essência das Palavras pode ser desvendado por meio da interpretação. Infelizmente não são todos os seres humanos que detêm a efetiva capacidade de interpretar. Interpretação requer, sobretudo, humanização. E, claro, sabemos que as pessoas são limitadas, assim como as Palavras. Limitação esta que se estende a capacidade de interpretar determinadas Palavras. Às vezes, o significado se encontra nas entrelinhas. E felizes são aqueles que conseguem captar as mensagens!
Arrisco-me a me colocar defronte as Palavras... Posso manejá-las à medida que meus sentimentos interagem e me conduzem a escolher aquelas que realmente possam expressar minha essência. É sinérgica a forma pela qual esboçamos, nas entrelinhas, as mensagens que queremos transmitir aos quatro ventos.
Experimentar a sinergia requer um pouco de esforço... É necessária a capacidade de arrancar o véu que embaça a visão... É preciso ambivalência: a capacidade de olhar para todos os campos da visão. Mas, não basta olhar com os olhos, é preciso olhar com o coração, para que a verdadeira Palavra possa agir: a Palavra de cada um/a de nós...
terça-feira, 17 de maio de 2011
Janela

Sozinha estava ela parada na janela vendo a vida passar. O tédio havia tomado conta daquele pobre coração abandonado... Tivera tudo. Hoje, não tinha nada. Sua única alegria era ver as folhas secas sendo derrubadas pela força do outono frio. Ah, outono... O outono e suas recordações... Para ela, esta estação era um misto de alegria e tristeza.
Recordava-se de passagens de vida que vinham como flashes em sua mente. Momentos que contribuíram para a construção de uma personalidade excêntrica e solitária. No passado, houvera redenção, pois acreditava em sonhos. Hoje, restam apenas esperança de que o final da caminhada se aproxima. A crença de outrora, na qual confiava na luz que emana das trevas, deu lugar a um ceticismo pessimista sem perspectiva de futuro.
Ela havia traçado projetos que valiam mais do que sua própria vida. Mas, no decorrer dos dias, percebeu que caminhava sozinha e em direção contrária aos acontecimentos. O mundo havia se transformado em um verdadeiro caos. O fato de caminhar na direção oposta a levou a ser taxada como maluca, o que de fato aconteceu. Tornou-se sozinha e maluca!
Agora, restava apenas esperar... Esperar eternamente por algo que, acreditava ela, haveria de surgir... Uma espera cruel e cansativa, porém necessária. Mas o que a mantinha firme, ali em frente à janela, eram nacos de esperanças que brotavam de dentro da alma como uma pequena chama prestes a ser apagada, mas que ainda aquece... Utopias de um dia fazer valer à pena... Ela descobriu o valor de uma janela: ali, estática, sempre vendo a vida passar; ela não queria ser uma simples janela... Queria poder pular e transformar o ciclo natural da vida. Ela queria apenas ser mais... E este desejo a consumia!
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Entre Escolhas e Marcas. De como vou compreendendo a essência...
A vida é uma caixinha de surpresas. Perdão começar um texto com um pensamento tão comum e simplista. Isso pode até desanimar e induzir o leitor a parar a leitura por aqui mesmo. Mas esta frase revela dimensões grandiosas. É... De surpresas a vida se faz! Somos surpreendidos em todos os momentos, sendo que os maiores responsáveis por estas surpresas somos nós mesmos. Basta que nos deparemos com possibilidade de fazer escolhas. E que haja discernimento! Uma das maiores dificuldades do ser humano, a meu ver, é escolher!
O raciocínio é simples. Imagine-se na seguinte situação: uma longa estrada. Logo à frente, uma placa com duas flechas indicando a possibilidade de seguir a estrada da direita ou da esquerda. O resultado disso: muita confusão! Esse atordoamento mental acontece devido às limitações enraizadas em cada ser humano, sendo a maior delas o medo de errar. Não seria para menos, visto que alguns erros podem repercutir por toda uma vida. Basta escolher o caminho errado.
Durante as fases da vida, somos levados a fazer escolhas. Isso é inevitável. Algumas dessas escolhas vêm mascaradas com a possibilidade de partida. Trilhar novos rumos passa a ser inevitável, visto que o ser humano tem a capacidade de sempre buscar ser mais. Mudanças, despedidas e dor são termos que se combinam.
Como uma viagem de trem, é a vida. Constantemente chegamos à estação, deixamos o vagão e novos aventureiros seguirão viagem. Subimos em outro vagão para trilharmos outro caminho e, no percurso, encontramos outros viajantes, que passarão a compor nossa história, deixando marcas. Inevitavelmente, ao término dessa viagem, chegamos ao destino e buscaremos outro rumo, deixando para traz aqueles que conhecemos, levando no coração somente as marcas que deixaram... Assim é o ciclo da vida. Se repete a cada instante.
Ao nos depararmos com a possibilidade de escolhas, devemos criar forças. Uma força que brota do mais profundo âmago da alma, que nos leva a nos desprender de ideologias enraizadas. Escolher pressupõe mudança de atitude e desprendimento. Requer esvaziamento de ego. Requer, sobretudo, desapego.
Devido à necessidade de mudar, as relações se tornam cada vez mais descartáveis, visto que as pessoas apenas passam por nossas vidas. Entretanto, as marcas que deixam duram eternamente.
Maria Rita expressa o "Destino" como ninguém na canção abaixo... Confira e sinta...
O raciocínio é simples. Imagine-se na seguinte situação: uma longa estrada. Logo à frente, uma placa com duas flechas indicando a possibilidade de seguir a estrada da direita ou da esquerda. O resultado disso: muita confusão! Esse atordoamento mental acontece devido às limitações enraizadas em cada ser humano, sendo a maior delas o medo de errar. Não seria para menos, visto que alguns erros podem repercutir por toda uma vida. Basta escolher o caminho errado.
Durante as fases da vida, somos levados a fazer escolhas. Isso é inevitável. Algumas dessas escolhas vêm mascaradas com a possibilidade de partida. Trilhar novos rumos passa a ser inevitável, visto que o ser humano tem a capacidade de sempre buscar ser mais. Mudanças, despedidas e dor são termos que se combinam.
Como uma viagem de trem, é a vida. Constantemente chegamos à estação, deixamos o vagão e novos aventureiros seguirão viagem. Subimos em outro vagão para trilharmos outro caminho e, no percurso, encontramos outros viajantes, que passarão a compor nossa história, deixando marcas. Inevitavelmente, ao término dessa viagem, chegamos ao destino e buscaremos outro rumo, deixando para traz aqueles que conhecemos, levando no coração somente as marcas que deixaram... Assim é o ciclo da vida. Se repete a cada instante.
Ao nos depararmos com a possibilidade de escolhas, devemos criar forças. Uma força que brota do mais profundo âmago da alma, que nos leva a nos desprender de ideologias enraizadas. Escolher pressupõe mudança de atitude e desprendimento. Requer esvaziamento de ego. Requer, sobretudo, desapego.
Devido à necessidade de mudar, as relações se tornam cada vez mais descartáveis, visto que as pessoas apenas passam por nossas vidas. Entretanto, as marcas que deixam duram eternamente.
Maria Rita expressa o "Destino" como ninguém na canção abaixo... Confira e sinta...
sábado, 23 de abril de 2011
Desabafos e rabiscos...
Deslocado do mundo às vezes me sinto. Se me oferecem quente ou frio, opto pelo morno. Sempre fui assim. Difícil. Porém intenso, o que me salva de ser um grande chato. Quando sinto algo, sinto de verdade, com os cinco sentidos mais um (o sexto). Por isso às vezes sofro. É difícil encontrar quem compreenda.
Certas atitudes típicas dos seres humanos me revoltam. Há pessoas que pensam que o mundo gira única e exclusivamente ao redor de seus próprios umbigos. Determinados indivíduos conseguem a façanha de transformar uma simples garoa em uma tempestade devastadora. Será que é tão difícil deixar-se guiar pelo bem senso? Para os insensatos, sim, é árduo.
Cheguei à conclusão de que o ambiente de trabalho pode ser facilmente transformado em uma extensão do inferno. A receita para esta transfiguração cruel é bem simples: junte pessoas que só pensam em lucro, acrescente uma pitada de pressão, delegue para a função de líderes pessoas sem espírito de liderança e sem noção alguma de humanidade. Pronto: basta servir o banquete infernal.
Este espaço foi criado para desabafos e pontos de vista. À medida que vomito as palavras, meu estado de espírito vai sendo aliviado. Perdão por descontar em vocês, caros leitores, mas o alívio é tão recompensador quanto ao de um antidepressivo (digo isso sem ter sequer a noção dos efeitos de antidepressivos, felizmente) E o melhor: não gasto sequer um centavo.
No decorrer de minha construção enquanto ser humano, sempre busquei utilizar as peças da mais perfeita qualidade: ética, bom senso, humanidade e sensatez. Infelizmente, o ambiente a qual fazemos parte insiste em desconstruir algo já solidificado. Daí provém o sentimento inevitável de revolta e frustração.
É necessário vestir as máscaras e buscar adaptação. Afinal, tudo na vida tem alguma razão de ser. Razão que às vezes levamos uma eternidade para descobrir e compreender. O que sei é que, para me encaixar no mundo, devo compreendê-lo. Algo que venho tentando desde quando nasci.
Quando era criança, nas aulas de matemática, a professora fazia o seguinte jogral: “Tinha cinco vacas, morreram duas, quantas ficaram?” Eu não queria saber de números! Meu desejo era desvendar o mistério por detrás da morte das pobres vaquinhas; o motivo que as levaram à óbito. Pragmatismos, jamais me convenceram. Por isso às vezes é tão complicado me adaptar a determinadas exigências...
sábado, 16 de abril de 2011
Semana Santa: De como faço memória de um tempo bom que permanece vivo em mim...

Inicia-se a Semana Santa. É o momento no qual fazemos memória da entrega de Jesus em nome de seus irmãos e irmãs. Revivemos e experimentamos, por meio dos cinco sentidos, a maior prova de amor que um simples homem já teve para com a humanidade. Durante as diferentes fases de minha vida, desenvolvi diversos olhares acerca dos acontecimentos que envolvem a semana santa, sempre procurando inseri-los à realidade a minha volta.
Como liturgia é vida e vida é memória, a Semana Santa tem para mim cheiro de nostalgia. Ainda me lembro da época de menino, quando esperançoso, aguardava a chegada desta grande semana. Não compreendia ao certo a importância que tudo isso tinha, mas sentia que se tratava de algo grandiosamente relevante, visto que minha avó e suas amigas não falavam de outra coisa. Cresci cercado de adoráveis “beatas”, que me ensinaram a ter muito carinho às tradições de um povo. Com elas, aprendi a sentir o sabor da simplicidade dos pequenos gestos. Aprendi que tudo na vida é uma grande Liturgia. Começo a fazer memória...
Depois de muito preparo, chega o grande dia. Domingo de Ramos. A capela do bairro toda enfeitada de plantas verdes, levava aquele menino que queria ser padre a viajar em seus próprios pensamentos. Ele não entendia, mas sentia que tudo aquilo remetia a um acontecimento glorioso. Alguém extremamente importante passaria logo mais por ali, no meio daqueles coqueiros verdinhos.
Evangelho. A partir da narração, o garoto começa a pensar no fato de como o grande salvador da humanidade foi glorificado sendo tão simples e humano. Ele foi recebido com esmero pelo povo de Jerusalém, mas sua simplicidade o distinguia dos líderes da atualidade que o menino costumava ver o povo aclamar. Jesus não entrou em Jerusalém dirigindo uma Ferrari de última geração. Pelo contrário. O notável homem passava montado em um velho burrinho, enquanto o povo o aclamava com ramos. Fazer vivência daqueles gestos conduzia o pequeno garoto a um estado de catártica admiração.
Início da semana, muitos terços na casa da avó. Era a vigília que precedia a quinta-feira Santa. As simpáticas “beatas” reuniam-se em torno a uma imagem da cruz e entoavam o tradicional terço. O garoto nunca entendeu ao certo o motivo de tantas repetições. Não entendia, mas sentia. Sentia que tudo aquilo tinha uma rica razão de ser para as mulheres que ali estavam. Após a reza do terço, a vida era celebrada, acompanhada de chazinhos e bolachas...
Eis que chega a quinta-feira Santa. No folheto da missa a inscrição: “Missa da Ceia do Senhor”. Por ceia, o garoto compreendia banquete, alimentos... O gesto de se sentar à mesa e se alimentar... Ele não sabia, mas sentia. Sentia que o momento de cear com a família era a hora de partilhar vivências. Ali, na mesa, as pessoas se alimentavam umas das outras. Em um belo ritual antropofágico, as experiências de vida eram partilhadas.
O mesmo aconteceria naquela noite. Um clima especial pairava sobre a capela. As pessoas muito alegres se cumprimentavam calorosamente com abraços e apertos de mão. A celebração começa. No decorrer dela, um gesto de profunda simplicidade fazia aquele menino compreender a essência da vida. O gesto era feito pelo padre que, repetindo o que Jesus fez em sua derradeira ceia, lavou os pés de cada discípulo seu... O sonhador menino não compreendia ao certo, mas sentia. Sentia que na realidade vigente, o mundo seria melhor se as pessoas se dispusessem a lavar os pés umas das outras, ajudando-se mutuamente, acolhendo umas as outras, sem distinção, sem segregação...

Após o ritual, já no finalzinho da celebração, o clima muda completamente. A alegria branca que pairava no ar dá lugar a um ambiente roxo e triste. Chegava o momento. O grande momento no qual a igreja se veria órfã. As velas se apagavam... As toalhas eram retiradas do altar... Os refletores dos Santos apagados... Silêncio. Todos se retiravam em um silêncio ensurdecedor. O menino sentia... Sentia que aquele seria o momento ideal para refletir sobre a vida. Aquela era a hora de dialogar consigo mesmo, diante daquele que se entregou em prol da humanidade.
Sexta-feira Santa era silêncio total. Ninguém fazia absolutamente nada além de rezar, rezar e rezar. Não seria para menos, acreditava, pois, o menino, já que o povo estava fazendo memória da morte de Jesus Cristo (que o menino chamava de Papai do Céu). Naquele dia, o almoço em família era diferente. Sem muitos alardes e conversas, saboreavam o bacalhau da sexta-feira santa... Seguido deste ritual, todos se dirigiam à capela... O menino sentia que algo iria acontecer... Um misto de dor e esperança estava presente... Uma ausência cheia de presença era celebrada...

Sábado Santo. As cores estavam diferentes. O clima de dor deu lugar à esperança! Ele não entendia, mas sentia... Sentia que naquela noite, alguma coisa importante aconteceria na igreja, que já estava sendo preparada para a missa da noite. Muitas flores e perfumes davam um toque especial...
À noite a celebração. O menino não sabia o porquê, mas sentia que a felicidade das pessoas era motivada pela superação da dor do dia anterior. As mulheres comentavam que Cristo havia ressuscitado! Naquela bela noite, muitas luzes, muitas cores, muita esperança... Era a memória da grande vitória: a vitória da vida sobre a morte! Portanto, não seria para menos a beleza daquela demorada missa. Tudo foi preparado com muito empenho e carinho, o que fazia o menino sentir... Ele sentia... Sentia... Sentia... E continuou sentindo até os dias de hoje...
Hoje este menino cresceu e passou a compreender...Desenvolveu ideias e buscou conhecer a fundo aquilo que a simplicidade das beatas do bem o fez amar. Hoje ele compreende que a vida é uma grande memória e que devemos ter orgulho de nossas tradições. Compreende que tudo na vida é rito que deve ser vivido e experimentado... Compreende que Liturgia é a Liturgia da vida... E que tudo se relaciona mutuamente como em um grande concerto musical... Sintonia...
Assinar:
Postagens (Atom)