sábado, 17 de novembro de 2012

De como falta sentido...

Que desespero! Tenho perdido a inspiração... De uns tempos para cá, parece-me que toda a sensibilidade, minha companheira de outrora nas viagens pelo inexplorável universo das palavras, me fora arrancada. Antes, as palavras brotavam facilmente de minha mente... Hoje, parece que sentem receio de se exteriorizarem e ficarem marcadas para sempre no papel... Estão escondidas em algum recôncavo de meu eu... Estão caladas, restritas exclusivamente à normatização do dia a dia.

Meu ideal seria extrapolar as barreiras que separam razão e emoção. Fui acometido pela cruel fragmentação do pensamento, que exige de mim a única capacidade de reproduzir, de forma racional, o que vejo. Tenho sido vítima da “síndrome do papagaio”, que me obriga a relatar, de forma fria e vazia, os fatos corriqueiros... Sou mero “observador” e não “observante”. Fora arrancada de mim o prazer de se escrever com a alma... A forma de escrever da alma se difere muito da forma de escrever da razão...

Os métodos limitam os devaneios tolos que atormentam meu eu... A sistematização do pensamento não me deixa exteriorizá-los. Mas, que perigo tais devaneios representam? São inofensivos... Não tenho a intenção de persuadir ninguém... Quero unicamente experimentar o gozo da melhor forma de “egoterapia” que é deixar com que as palavras que sufocam se (e me) libertem.

Fujo dos métodos... Fujo da normatização... Fujo das regras... Fujo dos significantes, pois procuro os significados. Aqueles brotam da razão, estes, do coração...

Mas, como recuperar a inspiração perdida? Como recuperá-la dos algozes que habitam toda a racionalidade humana? Como desfragmentar a sensibilidade? Enfim... Como saber o que se quer?

São muitas as perguntas, mas poucas e quase inexistentes as respostas... Eis os mistérios que garantem sabor à vida...

domingo, 22 de julho de 2012

Sobre perdas, sentimentos, confusão de ideias e... Subjetividade



De tão tênue que é, a linha que divide a razão da emoção chega a ser imperceptível. Provas de fogo são inevitáveis na vida, porém, ao sermos confrontados com elas, tornamo-nos meros covardes. Mediante cargas emocionais, o homo sapiens se reduz a homo demens.

Deveria ser ao contrário. Seres racionais que somos, adequado seria se agíssemos com equilíbrio, sensatez, coerência e inteligência. Todavia, persistimos no erro. O senso comum não está errado ao proferir que somos vítimas de nossas escolhas. Vou mais além e afirmo que o erro é pressuposto da vida. Por meio dele, nos tornamos mais fortes... Duros, talvez.

É fácil anular a própria felicidade simplesmente para satisfazer outrem? É digno viver mascarado ou se esconder atrás de um grupo social vestindo as máscara da chacota e da hipocrisia? É ético usar determinadas situações como válvulas de escape? Pobre homo demens...

A insegurança e o medo da felicidade nos trava. Em meio ao turbilhão de acontecimentos que envolvem a vida de um ser humano, existe espaço para sentimentos verdadeiros?

A vida é movimento. Sete bilhões de indivíduos respiram o mesmo ar! Sete bilhões de indivíduos compartilham das mesmas experiências de conquistas e derrotas. Mas, apesar da quantidade, a qualidade dos sentimentos é única, particular. Sentir verdadeiramente requer doses de maturidade e ousadia, virtudes cada vez mais escassas.

Sentimentos acabam. Ou melhor, transformam-se. Amor transforma-se facilmente em ódio; confiança em desconfiança; alegria em tristeza; sonhos em ilusão... Sentimentos provêm da subjetividade que, a meu ver, de subjetiva não tem nada, visto que pode ser usurpada a qualquer momento, num simples estalar de dedos... Basta que o homo demens dê abertura para isso...

Decepções com fatos de vida geram desesperança e ceticismo. Isso é fraqueza? Não sei... O que sei é que não existe terapia no mundo capaz de devolver certos bens outrora roubados... Bens interiores... A essência... Algo que não volta... Um simples espaço de tempo, simples palavras, pequenas atitudes podem destruir ou transformar a essência humana...

Somos fracos... Somos demens... Erramos... Insistimos no erro... Voltamos a viver... Sofremos...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

BBB: A fórmula da mediocridade



Todo o começo de ano grande parte dos telespectadores brasileiros espera ansiosamente pelo início de reallity show mais bizarro da televisão: o Big Brother. Ao navegar um pouco pelas redes sociais percebo que este programa aflora nas pessoas um senso crítico outrora jamais visto! No entanto, o asco pela atração demonstrado na rede não corresponde à sua audiência, que continua disparada na liderança. Observa-se, no entanto, que poder crítico das pessoas não é o mesmo quando é necessário expor opiniões acerca de temáticas que realmente são de interesse público, por exemplo, a política e a educação. Nestes casos, o povo prefere calar e deixar que alguém decida por eles. Mas isso é tema para outro artigo.

A que se deve o sucesso de um programa nesses moldes? A fórmula é simplista: pessoas que geralmente atendem à ditadura da beleza (imposta pela sociedade de consumo) são confinadas durante alguns meses em uma mansão, passam por provas de resistência, demonstram as dificuldades de relacionarem-se entre si, criam-se heróis e vilões, etc... Vence aquele que cativar o maior número de fãs, afinal, são os telespectadores que decidem quem será o vencedor que, além de alguns minutos de fama, ganha uma considerável quantia em dinheiro, sem esforço algum. Dinheiro, que por sinal, resulta das inúmeras inserções comerciais que esta atração cativa, além dos gastos telefônicos provenientes da inocência das pessoas que insistem em ligar para manter seus ídolos por mais tempo na mansão cheia de regalias.

Tudo é embasado em um roteiro pré-estabelecido pela inteligentíssima produção do programa que não mede esforço para não deixar o programa saturar (afinal, haja criatividade para manter como novidade um produto que está há doze anos no ar). Não é necessário ser pesquisador da área de crítica midiática para notar que por trás de tudo existe um roteiro meticulosamente elaborado.

Os participantes são chamados de heróis pelo apresentador, que há tempos deixou de ser um intelectual jornalista para atender às normas da emissora nem que trabalha. Pergunto-me, porém: a que se deve esta denominação? Será que os telespectadores da atração também os consideram como heróis?!

Apesar de tudo, o BBB permanece como líder absoluto de audiência na acirrada disputa mercadológica travada no horário de sua exibição. O sucesso se deve ao fator comum a todos os reallity shows: a identificação do público com as “personagens” que vivem as situações expostas. A permanência de pessoas “comuns” em uma mansão, causa no telespectador um processo de “inversão”, no qual eles se apropriam, subconscientemente, da realidade vista na televisão. O mesmo acontece com o sucesso das novelas, que por sinal, subestimam ao máximo a inteligência do telespectador.

Situações medíocres às quais os participantes se submetem são vistas com naturalidade por grande parte do público. À medida que os participantes vão gradualmente se transformando em vilões ou mocinhos, atendendo Às exigências dos roteiros, as famílias brasileiras aglomeram-se em frente ao aparelho televisor para descarregar ódios e torcidas a seus respectivos desafetos e prediletos.

Devido a toda essa mediocridade, a atração mantém-se bem sucedida. Afinal, é cômodo assisti-la, pois não requer o mínimo esforço cerebral por parte do arquetípico telespectador Hommer Simpson, o foco da Rede Globo de Televisão, aquele que assiste, admira e consome.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

TEMPO

O tempo é algo absurdamente ingrato. Às vezes voa ao ponto de não percebermos sua passagem... No entanto deixa marcas. O tempo é capaz de causar frustração. Planejamos muitas coisas a serem feitas no decorrer da vida, no entanto, o algoz tempo não colabora. Faz questão de passar correndo e nos dar uma rasteira, impossibilitando que concretizemos aquilo que idealizamos.
Mais um ano vai embora... Passou tão depressa que a impressão que fica é que praticamente não vivemos! Parece que muita coisa ficou para trás! Esta velocidade sem igual gera estas impressões que, não são reais, mas garantem certa dose de apreensão e, por consequência, uma dolorosa sensação de frustração.
Porém, sou muito grato a 2011. Foi um ano de reflexão. Após a conclusão da faculdade e do meu estágio, parei e refleti. Coloquei tudo na balança. Refleti sobre erros e acertos, perdas e ganhos... Tive experiências profissionais diferentes da minha área de formação, que me ajudaram a perceber que realmente só sei trabalhar como jornalista... Conheci pessoas que somaram muito em minha vida... Amei... Pude me aprofundar em conhecimentos religiosos que preencheram minha alma... Pude estar mais próximo da família... Enfim... Os ganhos foram muitos no ano de 2011.
Agora resta esperar a chegada de 2012, tendo como único arsenal a esperança! Arsenal que nos ajudará a enfrentar os desafios que estão por vir. Seja bem vindo, 2012!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal (de verdade)



Comemorar o natal e ao mesmo tempo ignorar a realidade do mundo soaria como atitude minimamente hipócrita. Nesta época do ano é comum nos depararmos com atitudes que, em outros momentos do ano dificilmente acontecem. Para atender àquilo que o capitalismo ou sei lá o que pregam, parece que certo amor que não sei de onde vem invade o coração das pessoas.

Patrões que passam o ano todo humilhando e explorando funcionários os presenteia com panetones, confraternizações e afins; pessoas fazem “vaquinhas” para entregar cestas básicas aos que necessitam, como se a fome tivesse tempo pré-determinado para ser cessada; pessoas que mal se falam durante o ano todo se abraçam e desejam boas festas... Enfim, a hipocrisia rola solta!

No entanto, não é só de ceticismo que vive este blogueiro que, por sinal, há tempos não passa por aqui. Acredito que o Natal resgata sentimentos que deveriam ser valorizados nos 365 dias do ano. São atitudes básicas de humanidade que não podem ser prescindidas. Atitudes que, se praticadas com maior freqüência, tornaria o mundo um pouco melhor. O Natal poderia se estender por todo o ano, para que as pessoas passassem a “amolecer” o coração como fazem nesta época do ano.

Nunca fui adepto às comemorações de festas natalinas. Participo mais por convenção social. É muito bom sim estar em família, no entanto, acredito que também possamos comemorar juntos em outras ocasiões.

Dou mais valor ao que a maioria das pessoas, em virtude do consumismo voraz motivado pelo capitalismo nesta época do ano, acaba esquecendo: o grande mistério da encarnação de Deus, que assumiu inteiramente a condição humana, sobretudo as imperfeições. Ele veio como luz para iluminar as trevas da humanidade que havia perdido a esperança. É este o sentimento que deve nortear nossa vida, a fim de que saibamos manter olhar esperançoso frente ao mundo e, assim, estender para toda a existência os sentimentos natalinos.

sábado, 30 de julho de 2011

A imagem ideal do Divino

Antes de dizer amém em suas casas e lugares de oração, pensem, pensem e lembrem-se, existe uma criança ouvindo – Mary Griffity

Existe uma lógica que normatiza a expressão de nossa fé. Este costume nos é imposto desde o momento em que nascemos. Aprendemos os nomes de Deus, a temê-lo, a evitar que Ele nos castigue, a como experimentar nossa espiritualidade, enfim. Nossa relação com o divino é intermediada por meio de fórmulas prontas com as quais o diálogo com Deus é “facilitado”. Este tipo de religiosidade/espiritualidade revela uma lógica opressora, visto que nos aprisiona a nós mesmos, impedindo-nos de buscar o sagrado em sua verdadeira essência.

Nossa capacidade de descobrir a espiritualidade por meio do caminho da vida é cerceada à medida que nos é imposta a imagem de um Deus soberano, distante da realidade e todo-poderoso. Especialmente na infância, a imagem de Deus que é construída na mentalidade das pessoas é de um Pai austero que castiga seus filhos quando estes se desviam de regras tidas como verdades universais. Tal imagem é embutida no indivíduo, que cresce com esta visão do Sagrado. Este é um dos maiores causadores de toda a opressão que assola o mundo.

A existência de alguém que possui as rédeas da situação e a controla por meio de mecanismos opressores pressupõe medo e, por consequência, conformismo por parte da sociedade. A capacidade do ser humano de raciocinar, argumentar e se opor a preceitos impostos é subtraída.

A construção da imagem de um Deus opressor serve para esconder as opressões causadas pela própria humanidade. Colocar a culpa em Deus pelos equívocos e preconceitos sociais é mais cômodo. Sendo assim, instituições religiosas formulam suas prescrições a fim de edificar uma sociedade ideal para elas mesmas, isto é, benéfica para uma singela parcela da sociedade. O que é certo e o que é errado condizem unicamente com os ideais daqueles que controlam. O patriarcalismo impera.

No entanto, o que tudo isso tem a ver com a frase de Mary Griffity? É na educação nos primeiros anos de vida que a personalidade do ser humano vai sendo aos poucos moldada. A partir daí, o indivíduo cria capacidade e autonomia de discernir os caminhos a se seguir. Se continuarmos a dizer “amém” na frente das crianças a um Deus opressor, perpetuaremos a existência de uma sociedade que isola, exclui e prega preconceitos.

Por outro lado, se a imagem do divino for construída junto com a criança, a partir dela mesma e do universo no qual vive, os benefícios e as delícias desta descoberta se expandirão mundo afora. Talvez esse “despertar” possa ser um dos ingredientes para tornar o mundo um pouco melhor. Assim como disse Rubem Alves:

Minha infância foi uma infância feliz. [...]
Não era preciso dizer os nomes dos deuses nem eu os sabia.
O Sagrado aparecia, sem nome, no capim, nos pássaros, nos riachos,
Na chuva, nas árvores, nas nuvens, nos animais,
Isso me dava alegria!
Como no paraíso [...]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Na rodoviária, o abandono...

Ela estava sentada no banco da rodoviária naquela madrugada fria. Não me recordo o dia da semana. A manhã estava cinzenta, um tanto que deslocada do tempo. Apressado eu estava, mas aquele olhar triste me chamou a atenção e me fez parar por um instante e refletir. De onde vinha aquela criatura? Que histórias ela tinha para contar?

Seus cabelos brancos denunciavam experiência de vida. As mãos calejadas demonstravam longos tempos de trabalho intenso, a fim, talvez, de manter o sustento dos filhos. Será que ela tinha filhos? Por que será que estava ali, abandonada no frio? O que tinha deixado para trás? Será que alguém um dia já parou por um momento e a olhou nos olhos, como eu fiz naquele instante, mesmo que de forma rápida?

Na rodoviária vidas se cruzam de forma absurdamente veloz. Histórias de vida se esbarram toda hora! É um ir e vir permanente, no qual as pessoas chegam e vão embora... Medos, frustrações, alegrias e tristezas se confluem em uma confusão cósmica completamente surreal. Na rodoviária a vida se dá de forma desconecta e efêmera. Mas aquele rosto me cativou... Me fez parar pelo caminho corrido do meu dia e simplesmente contemplar. Foi rápido, mas a contemplei.

Contemplei seus cabelos brancos. Contemplei seus olhos marejados (o que será que já viram?). Contemplei sua frágil pele (o peso dos anos evidenciava-se). Devolvi a ela a condição de ser humano, pelo olhar humano que a concedi. A enxerguei com dignidade e respeito. Procurei imaginar o que já plantara e colhera nos jardins da vida, buscando respostas internas para os motivos que ocasionaram o extermínio de suas flores.

Ao compreender a fragilidade daquela mulher, me dei conta também de minha própria fragilidade. Tenho limitações inerentes a qualquer ser humano que sente vontade de mudar o mundo, mas não é capaz de fazê-lo. As faces do abandono daquele ser talvez sejam reflexos de uma sociedade injusta e excludente. Ou, talvez, seja motivo de desilusões da vida. Pois como diz a música, “cada um sabe a dor e a alegria de ser o que é...”