sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

2013...


2013... Que ano foi esse? Atípico não seria o termo ideal. Talvez, um ano de transição. E isso ficou evidente, sobretudo na Igreja Católica, que em feito inédito assistiu a um Papa renunciar, dando espaço para que outro aderisse à Cátedra de Pedro. Nenhuma geração atual havia presenciado tamanha façanha, que ocorrera pela última vez há quase seiscentos anos.

Tragédias, mortes, catástrofes... Muita coisa fez com que 2013 fosse um ano de reviravoltas. Notícias foram compartilhadas a todo o tempo nos Iphones, Ipods e tecnologias que estreitam universos. 

Reviravoltas políticas mostraram que o povo já não é uma massa amórfica e passiva. O “gigante acordou” (termo clichê explorado incontáveis vezes pela mídia) e foi às ruas reivindicar reforma política. Muitos sequer sabiam o que estavam fazendo ali, isto é fato, mas quando a sociedade se organiza, as transformações acontecem, apesar é claro das facções criminosas que se juntaram à turba.

Prefiro manter o pensamento inocente e utópico de que as condenações do esquema de corrupção mais aterrador da história do Brasil, o Mensalão, sejam resultado da voz que ecoou nas ruas em meados de junho/julho.

Como de praxe, o ano civil termina após 365 dias, dando espaço para que outro se inicie. Contudo, os acontecimentos de 2013 foram tantos, que vai ser impossível apagar as marcas que deixaram. 2013 ainda precisará de um bom tempo para terminar. Deverá dividir espaço com 2014, 2015, etc etc...

Em termos culturais, mais do mesmo. Parece que o turbilhão de acontecimentos do Brasil e do mundo afetou a criatividade dos roteiristas de cinema, músicos, diretores de teatro, autores de livros... Nenhum movimento novo adveio. Vimos apenas continuidade do que já existia e que foi capaz de cessar a ânsia da massa que busca entretenimento. Não surgiu nada que gerou aquela inquietação espantosa que tanto acalenta as mentes dos que admiram as artes.

Que 2014 também seja um ano de muito movimento. Ao que tudo indica, estamos na Era antimarasmo, na qual tudo acontece de forma espantosamente veloz, de modo que se não prestarmos atenção, ficamos à margem. A todos, um Feliz 2014. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Memórias...

Um simples gesto casual me fez revisitar memórias há tempos guardadas em um grande baú. Não pude conter as punhaladas da saudade. Não resisti. Muitos acontecimentos deram novos rumos à trajetória, corroborando a certeza de que algo precisa morrer para que outra semente possa germinar, crescer e proporcionar frutos.

Momentos compõem o livro de nossa vida. Protagonistas que somos, dividimos o enredo com outros personagens. Alguns ficam até o final da história. Outros se perdem no caminho. Alguns são descartados. Outros são levados pelas leis naturais... Mas o que ficam são as transformações geradas por suas presenças. Ficam as memórias.   Se valeram a pena, transformam-se em saudade e, porque não, em lágrimas. Se não valeram, não são esquecidas, mas são relegadas a um plano de mera recordação de algo que foi preciso ser vivido.


É bom revisitar capítulos antigos de nossa vida. Criamos força para continuar a escrever este árduo enredo. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um Papa de ruptura


O Brasil que o Papa Francisco I encontrou está menos católico. De acordo com pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha no último domingo, apenas 57% da população se declara católica. Em 1994 o percentual era de 75%.

Francisco se deparará com uma igreja de extremos.  De um lado, movimentos como a Renovação Carismática e de outro, grupos voltados à fé engajada no compromisso social.

O primeiro grupo muito se assemelha aos movimentos neopentecostais. Em seus cultos, a liturgia ensinada pelos primeiros pais da igreja é relegada a um plano inferior. Vale mais a exaltação momentânea, a gritaria, as tais “curas libertadoras”... Importam-se mais com a quantidade, em detrimento da qualidade. As celebrações carismáticas têm um fim em si mesmas, pois aquilo que se prega, nem sempre é levado para a prática. Discursos fundamentalistas dão o tom deste grupo, que insiste em velar o olhar para a realidade do mundo contemporâneo e sua multipolaridade.

No outro extremo, o catolicismo conta com grupos engajados na transformação social. Com ideais marxistas, valorizam a mudança da conjuntura social a partir da fé compromissada. Aqui, a realidade é valorizada tal como realmente é. O ser humano é visto em sua totalidade, e não sofre acusações de que é pecador devido às suas escolhas. Prega-se uma prática mais consciente e “pé no chão”, de modo que a fé não fica restrita aos muros dos templos. Por defenderem a justiça, os adeptos a este grupo são erroneamente taxados como “hereges que querem destruir a Instituição”, mito propagado pela Canção Nova (a maior difusora do movimento carismático).

“Francisco é Papa de ruptura”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida hoje à Folha de São Paulo. Apensar dos distintos grupos, o discurso da instituição Igreja Católica deve valorizar a realidade do mundo. Dialogar com diversos grupos, dentre eles a Teologia da Libertação, é essencial para a conquista da Unidade tão propagada por Jesus Cristo, que foi um grande líder revolucionário à frente de seu tempo.


Deixar a hipocrisia e o poder de lado e fazer valer os verdadeiros ensinamentos da fé é um importante passo que a Igreja deve tomar para reanimar seus fiéis. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Reflexões sobre o amor

Apesar de ser fruto do sistema capitalista voraz, que articula datas comemorativas simplesmente para aumentar a venda de produtos e, por consequência, as cifras do comércio, o Dia dos Namorados nos leva a refletir sobre o Amor.

Este termo-sentimento já foi traduzido por muitos pensadores. Entretanto, ninguém conseguiu defini-lo de forma satisfatória. De Paulo, o apóstolo, à Camões, as definições dão constantes voltas, mas sempre retornam ao eixo do vocábulo. Amor. Provém de Amar, verbo transitivo direto. Matéria-prima dos poetas, a palavra-sentimento já foi deturpada e banalizou-se.

Amor é movimento. Sentimento que começa no corpo e que se estende para o mundo em diferentes formas, tais como peças de um mosaico multicolorido. Por isso é ferida que dói, mas não se sente. Dor que desatina e que paradoxalmente não nos deixa sentir, mas gera incômodo e nos tira do comodismo. O amor nos faz ser mais insanos, mas ao mesmo tempo concede inspiração e inteligência. Ou seja, é complexo. Dúbio. E por que não, bipolar.

 São justas todas as formas de amar. Portanto, é palavra que prega peças, dada a impossibilidade de defini-la objetiva e precisamente. Para que algumas palavras tenham significado, é necessário que a mesma seja experimentada no corpo. Caso contrário reduz-se a mera falácia e juízo de valor. Mas externar a experiência do corpo é particularidade de cada um.

Para os céticos, o amor se restringe ao universo utópico, onírico e subjetivo. Para os sonhadores, é pré-condição da felicidade. Tom Jobim, inclusive, defendeu a máxima de que “é impossível ser feliz sozinho” (Wave).

Discordo do grande músico. Desde que se tenha uma relação saudável consigo mesmo, estar sozinho é uma dádiva. O primeiro passo do árduo caminho do amor é amar-se, sobretudo, a si mesmo. Em primeiro lugar.

Que o Dia dos Namorados não seja considerado única e exclusivamente fruto do consumismo (é isso, mas um pouco de utopia faz bem). Aproveitemos este data para refletir sobre as diversas manifestações deste vocábulo-sentimento tão contraditório.

sábado, 18 de maio de 2013

Águas Turvas: Um mergulho por intensos sentimentos


“As águas estão mais turvas, os lagos menos calmos e as pedras cada vez mais escorregadias”. A metáfora preconiza a obra “Águas Turvas (Editora Faces, 2012, 274 páginas), de autoria do aclamado jornalista Helder Caldeira, que marca seu ingresso no universo literário da ficção.

Narrado com sensibilidade exímia, o livro apresenta a história de amor entre o médico brasileiro Gabriel Campos e o empresário americano Justin Thompson. A relação entre eles é apenas pano de fundo para se chegar ao cerne dos sentimentos mais profundos que existem nas vidas de cada um. A narrativa se aproxima da jornalística, por ser objetiva e evitar delongas.

A obra não se perde em clichês, costumeiramente utilizados em livros ou filmes de temática homossexual, que apelam para a tragédia, dramalhão previsível e supervalorização dos atos sexuais. A obra de Caldeira segue na contramão do que é comum, ao explorar a singeleza dos sentimentos entre os dois homens e suas realidades.

A ascensão e derrocada da família Thompson em meio à crise que assolou os Estados Unidos em meados de 2009 é narrada com requinte literário moderno. O leitor é imerso nos sentimentos de cada personagem, analogamente retratados em contraponto à descrição das estações do ano da bela cidade de Holden, nas colinas do Condado de Worcester, em Massachussetts. Segredos, traições, patologias, perdas e recomeços são apresentados como seixos rolados que, em meio às águas turvas, confundem o campo de visão, porém, convidam a ser desvendados em sua essência. É uma obra sinestésica, visto que o leitor experimenta cada sensação.

Impossível não criar empatia com o relacionamento de Justin e Gabriel. No entanto, dada a perfeição do casal, leitores mais céticos hão de questionar: “amores como este só são possíveis em obras de ficção”. O respeito e a cumplicidade entre o casal os tornam os personagens mais íntegros da obra, estratégia talvez utilizada pelo autor para romper paradigmas.

A obra surpreende a cada página, sobretudo pelo diferencial de ser embalada por uma trilha sonora escolhida com perfeição, que vai de Pearl Jam a Bee Gees, o que ajuda a personificar a narrativa.

O único clichê, talvez, está no primeiro encontro de Gabriel e Justin, que reproduz a clássica cena dos romances água com açúcar protagonizados por Meg Ryan, no qual um dos protagonistas cai, levanta-se lentamente e se depara com o olhar do outro, sendo esta a condição para aflorar o tal “amor para toda a vida”. Este pequeno aforismo, contudo, não prejudica a maestria da obra.

“Águas Turvas” proporciona ao leitor um mergulho por intensos sentimentos. Uma obra que marcará a história da literatura nacional.    

segunda-feira, 8 de abril de 2013

“Sozinho no Deserto Extremo”: o inferno é você mesmo



Imagine acordar certa manhã e perceber que todas as pessoas do mundo desapareceram misteriosa e inexplicavelmente. Esta é a premissa do livro “Sozinho no deserto Extremo” (Prumo, 2012, 320 páginas), obra do brasileiro Luis Brás (pseudônimo do escritor Nelson de Oliveira).

Davi, pacato e estereotipado proprietário de uma agência de publicidade se vê envolto na mais remota e assustadora solidão. Em determinada manhã, ao acordar, se dá conta de que a imensa São Paulo fora evacuada, restando apenas ele. Somente ele. A partir daí, Davi inicia uma batalha consigo mesmo. Se Sartre defendera que “o inferno são os outros”, o protagonista da obra experimenta na carne que o inferno é e está nele mesmo.

Os conflitos psicológicos causado pela solidão e os devaneios do fracassado protagonista são esmiuçados de forma com que autor e personagem se confundem. O leitor é levado a submergir-se no universo angustiante e aterrador da solidão total. O deserto extremo é o próprio universo de Davi, que de delírio em delírio vai definindo sua nova personalidade rumo à loucura.

Outrora desejo invicto de Davi, a solidão total desencadeia nele a verdadeira insanidade, a ponto de levá-lo a criar realidades. Uma suposta “menina-santa”, um maníaco incendiário e uma boneca inflável aparecem no caminho de Davi, o que leva o leitor a questionar-se até que ponto a realidade é real ou criada no universo particular do protagonista.

“Sozinho no deserto extremo” é uma história de profundas implicações filosóficas e repleta de simbolismos, porém, em contexto concreto e familiar. Cabe ao leitor desvendar enigma por enigma e construir sua própria reflexão, amparada nos devaneios e realidades criadas por Davi. Leitores não habituados a refletir e que procuram leitura pragmática verão o livro como obra descartável.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Novos Tempos


A renúncia do papa Bento XVI revolucionou a história da humanidade. Nenhuma geração contemporânea teve a oportunidade de viver tal fato. A última renúncia ocorrera há 600 anos, quando Gregório XII abdicou ao pontificado. Todo ato revolucionário e inovador acarreta transformações. Há quem considere o sucessor de Pedro como único representante de Cristo na Terra. Outros, o enxergam apenas como mero líder de Estado, com sumo poder político. A decisão, portanto, divide opiniões.

Será difícil saber ao certo os reais motivos que fizeram com que Joseph Ratzinger abdicasse ao trono papal e a posição de maior líder da humanidade. Seja por pressão política ou simplesmente por saúde frágil, podemos considerar a decisão como um grande ato de humildade.

Humildade expressa nos discursos de Bento, no qual expressa sua incapacidade de liderar a Igreja frente aos desafios impostos pelo mundo contemporâneo. Desafios estes que o ultraconservadorismo insiste em velar, tais como: relações homoafetivas, sacerdócio de mulheres, celibato, entre outras inúmeras realidades.

O que esperar do novo papa? Não acredito em grandes mudanças, pois a força do sistema grita mais alto e se sobrepõe ao clamor da contemporaneidade. Contudo, desejo ardentemente que sejam retomadas questões até então ignoradas por Ratzinger, como as conclusões do concílio Vaticano II (1962), que preconizava uma abertura maior da Igreja Católica. O projeto de Jesus era revolucionário e cabe a igreja responder aos anseios da humanidade.

Nos oito anos à frente do pontificado, Bento XVI calou a voz de muitos teólogos brasileiros da Teologia da Libertação. Fortaleceu-se um injusto mito sobre aqueles que se empenham na defesa do projeto de justiça e vida. Jesus defendia os mesmos ideais libertadores, como pode ser facilmente encontrado nas ações narradas pelos Evangelhos.

Que os cardeais tenham discernimento na escolha do novo papa. Trata-se de uma grande responsabilidade, visto que escolherão em nome de cerca de 2 bilhões de católicos. Que sejam guiados pelo Espírito da inteligência e do bom senso. Este sim sopra onde (e como) quer.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Obrigado, 2012!


2012 foi um ano de contrários. Perdi muitas coisas, mas também ganhei. Frustrei-me, mas também obtive conquistas. Tristezas e alegrias fizeram parte de meus dias. Pessoas partiram, mas outras chegaram para preencher as lacunas e fazer parte de minha história.

De tão paradoxal que foi 2012, não sei se consigo ser objetivo e realizar um balanço geral a fim de avaliar se o ano foi positivo ou negativo... Ficaria encima do muro. Prefiro ficar na espreita, com o coração cumulado de esperanças para 2013, que chega como um verdadeiro presente de Deus; como um livro de 365 páginas em branco, esperando para serem preenchidas.

Agradeço a todos que estiveram ao meu lado (perto ou longe, pela sintonia do pensamento) durante 2012. É inevitável que a memória, neste último dia do ano, não resgate momentos que fizeram a diferença...

À medida que escrevo, brotam de minha mente as inúmeras fases vividas. A etapa “inspetor”, completamente aquém de minhas expectativas, porém necessária para meu crescimento pessoal; as pessoas que partiram (por vontade própria ou de Deus), me fizeram analisar quem realmente importa nesta vida; os momentos de espiritualidade experimentados em comunidade; as dificuldades e conquistas de novos campos profissionais, que me fizeram colocar em prática o que assimilei em quatro anos de estudos; os momentos felizes vividos com amigos; conquistas acadêmicas...

Enfim, parte de uma vida aconteceu em 2012! Impossível apagar este ano da memória, pois já ficou impregnado e eternizado no coração. O ano passa, mas um pedaço da vida ficará junto com ele. Obrigado, 2012! E que venha 2013, com todos os seus desafios, prontinho para ser vivido à risca!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Pedaços de vida em minhas mãos


E de repente a vida os pregara uma peça. Inimaginavelmente viram a rota ser desviada. Seguiram direções contrárias. Promessas de um futuro eterno foram apagas impiedosamente. Cada um trilhou seu caminho, sem olhar para trás, não deixando transparecer os reais sentimentos. Aboliram qualquer hipótese de deixar a emoção superar a força da racionalidade. Para atender às expectativas do mundo externo, sufocaram a voz que ecoava fortemente do coração.

Tive a oportunidade de contemplar aqueles olhares taciturnos motivados pela dor da separação. Por mais que tentassem ocultar a real dimensão de seus sentimentos, os olhos denunciavam. Aliás, eles sempre denunciam, pois são espelhos da alma. Quem possui sensibilidade um pouco mais aguçada, percebe.

Ao analisá-los, percebi que aquele sentimento que chamam de saudade possui sabor... Um sabor amargo, mas ao mesmo tempo doce. Um gosto que gera indigestão, mas ao mesmo tempo causa alívio. Um sentimento extremamente paradoxal, provido de algo que já não faz parte da vida, que fora desprendido de nós mesmos pelas casualidades da vida.

Com este sentimento guiando seus passos, eles trilharão seus caminhos. Porém, conviverão eternamente com a terrível maldição que é o pensamento humano. Uma vez deixadas, certas marcas ficam impregnadas eternamente em nossa alma! Tal como cicatrizes de feridas, aos poucos se amenizam, porém, a marca sempre existirá. Ao contemplar a marca, reviverão o passado que os aprisiona um ao outro. Pudera eu trazê-los de volta para a vida usando como arsenal a força das palavras...

sábado, 17 de novembro de 2012

De como falta sentido...

Que desespero! Tenho perdido a inspiração... De uns tempos para cá, parece-me que toda a sensibilidade, minha companheira de outrora nas viagens pelo inexplorável universo das palavras, me fora arrancada. Antes, as palavras brotavam facilmente de minha mente... Hoje, parece que sentem receio de se exteriorizarem e ficarem marcadas para sempre no papel... Estão escondidas em algum recôncavo de meu eu... Estão caladas, restritas exclusivamente à normatização do dia a dia.

Meu ideal seria extrapolar as barreiras que separam razão e emoção. Fui acometido pela cruel fragmentação do pensamento, que exige de mim a única capacidade de reproduzir, de forma racional, o que vejo. Tenho sido vítima da “síndrome do papagaio”, que me obriga a relatar, de forma fria e vazia, os fatos corriqueiros... Sou mero “observador” e não “observante”. Fora arrancada de mim o prazer de se escrever com a alma... A forma de escrever da alma se difere muito da forma de escrever da razão...

Os métodos limitam os devaneios tolos que atormentam meu eu... A sistematização do pensamento não me deixa exteriorizá-los. Mas, que perigo tais devaneios representam? São inofensivos... Não tenho a intenção de persuadir ninguém... Quero unicamente experimentar o gozo da melhor forma de “egoterapia” que é deixar com que as palavras que sufocam se (e me) libertem.

Fujo dos métodos... Fujo da normatização... Fujo das regras... Fujo dos significantes, pois procuro os significados. Aqueles brotam da razão, estes, do coração...

Mas, como recuperar a inspiração perdida? Como recuperá-la dos algozes que habitam toda a racionalidade humana? Como desfragmentar a sensibilidade? Enfim... Como saber o que se quer?

São muitas as perguntas, mas poucas e quase inexistentes as respostas... Eis os mistérios que garantem sabor à vida...

domingo, 22 de julho de 2012

Sobre perdas, sentimentos, confusão de ideias e... Subjetividade



De tão tênue que é, a linha que divide a razão da emoção chega a ser imperceptível. Provas de fogo são inevitáveis na vida, porém, ao sermos confrontados com elas, tornamo-nos meros covardes. Mediante cargas emocionais, o homo sapiens se reduz a homo demens.

Deveria ser ao contrário. Seres racionais que somos, adequado seria se agíssemos com equilíbrio, sensatez, coerência e inteligência. Todavia, persistimos no erro. O senso comum não está errado ao proferir que somos vítimas de nossas escolhas. Vou mais além e afirmo que o erro é pressuposto da vida. Por meio dele, nos tornamos mais fortes... Duros, talvez.

É fácil anular a própria felicidade simplesmente para satisfazer outrem? É digno viver mascarado ou se esconder atrás de um grupo social vestindo as máscara da chacota e da hipocrisia? É ético usar determinadas situações como válvulas de escape? Pobre homo demens...

A insegurança e o medo da felicidade nos trava. Em meio ao turbilhão de acontecimentos que envolvem a vida de um ser humano, existe espaço para sentimentos verdadeiros?

A vida é movimento. Sete bilhões de indivíduos respiram o mesmo ar! Sete bilhões de indivíduos compartilham das mesmas experiências de conquistas e derrotas. Mas, apesar da quantidade, a qualidade dos sentimentos é única, particular. Sentir verdadeiramente requer doses de maturidade e ousadia, virtudes cada vez mais escassas.

Sentimentos acabam. Ou melhor, transformam-se. Amor transforma-se facilmente em ódio; confiança em desconfiança; alegria em tristeza; sonhos em ilusão... Sentimentos provêm da subjetividade que, a meu ver, de subjetiva não tem nada, visto que pode ser usurpada a qualquer momento, num simples estalar de dedos... Basta que o homo demens dê abertura para isso...

Decepções com fatos de vida geram desesperança e ceticismo. Isso é fraqueza? Não sei... O que sei é que não existe terapia no mundo capaz de devolver certos bens outrora roubados... Bens interiores... A essência... Algo que não volta... Um simples espaço de tempo, simples palavras, pequenas atitudes podem destruir ou transformar a essência humana...

Somos fracos... Somos demens... Erramos... Insistimos no erro... Voltamos a viver... Sofremos...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

BBB: A fórmula da mediocridade



Todo o começo de ano grande parte dos telespectadores brasileiros espera ansiosamente pelo início de reallity show mais bizarro da televisão: o Big Brother. Ao navegar um pouco pelas redes sociais percebo que este programa aflora nas pessoas um senso crítico outrora jamais visto! No entanto, o asco pela atração demonstrado na rede não corresponde à sua audiência, que continua disparada na liderança. Observa-se, no entanto, que poder crítico das pessoas não é o mesmo quando é necessário expor opiniões acerca de temáticas que realmente são de interesse público, por exemplo, a política e a educação. Nestes casos, o povo prefere calar e deixar que alguém decida por eles. Mas isso é tema para outro artigo.

A que se deve o sucesso de um programa nesses moldes? A fórmula é simplista: pessoas que geralmente atendem à ditadura da beleza (imposta pela sociedade de consumo) são confinadas durante alguns meses em uma mansão, passam por provas de resistência, demonstram as dificuldades de relacionarem-se entre si, criam-se heróis e vilões, etc... Vence aquele que cativar o maior número de fãs, afinal, são os telespectadores que decidem quem será o vencedor que, além de alguns minutos de fama, ganha uma considerável quantia em dinheiro, sem esforço algum. Dinheiro, que por sinal, resulta das inúmeras inserções comerciais que esta atração cativa, além dos gastos telefônicos provenientes da inocência das pessoas que insistem em ligar para manter seus ídolos por mais tempo na mansão cheia de regalias.

Tudo é embasado em um roteiro pré-estabelecido pela inteligentíssima produção do programa que não mede esforço para não deixar o programa saturar (afinal, haja criatividade para manter como novidade um produto que está há doze anos no ar). Não é necessário ser pesquisador da área de crítica midiática para notar que por trás de tudo existe um roteiro meticulosamente elaborado.

Os participantes são chamados de heróis pelo apresentador, que há tempos deixou de ser um intelectual jornalista para atender às normas da emissora nem que trabalha. Pergunto-me, porém: a que se deve esta denominação? Será que os telespectadores da atração também os consideram como heróis?!

Apesar de tudo, o BBB permanece como líder absoluto de audiência na acirrada disputa mercadológica travada no horário de sua exibição. O sucesso se deve ao fator comum a todos os reallity shows: a identificação do público com as “personagens” que vivem as situações expostas. A permanência de pessoas “comuns” em uma mansão, causa no telespectador um processo de “inversão”, no qual eles se apropriam, subconscientemente, da realidade vista na televisão. O mesmo acontece com o sucesso das novelas, que por sinal, subestimam ao máximo a inteligência do telespectador.

Situações medíocres às quais os participantes se submetem são vistas com naturalidade por grande parte do público. À medida que os participantes vão gradualmente se transformando em vilões ou mocinhos, atendendo Às exigências dos roteiros, as famílias brasileiras aglomeram-se em frente ao aparelho televisor para descarregar ódios e torcidas a seus respectivos desafetos e prediletos.

Devido a toda essa mediocridade, a atração mantém-se bem sucedida. Afinal, é cômodo assisti-la, pois não requer o mínimo esforço cerebral por parte do arquetípico telespectador Hommer Simpson, o foco da Rede Globo de Televisão, aquele que assiste, admira e consome.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

TEMPO

O tempo é algo absurdamente ingrato. Às vezes voa ao ponto de não percebermos sua passagem... No entanto deixa marcas. O tempo é capaz de causar frustração. Planejamos muitas coisas a serem feitas no decorrer da vida, no entanto, o algoz tempo não colabora. Faz questão de passar correndo e nos dar uma rasteira, impossibilitando que concretizemos aquilo que idealizamos.
Mais um ano vai embora... Passou tão depressa que a impressão que fica é que praticamente não vivemos! Parece que muita coisa ficou para trás! Esta velocidade sem igual gera estas impressões que, não são reais, mas garantem certa dose de apreensão e, por consequência, uma dolorosa sensação de frustração.
Porém, sou muito grato a 2011. Foi um ano de reflexão. Após a conclusão da faculdade e do meu estágio, parei e refleti. Coloquei tudo na balança. Refleti sobre erros e acertos, perdas e ganhos... Tive experiências profissionais diferentes da minha área de formação, que me ajudaram a perceber que realmente só sei trabalhar como jornalista... Conheci pessoas que somaram muito em minha vida... Amei... Pude me aprofundar em conhecimentos religiosos que preencheram minha alma... Pude estar mais próximo da família... Enfim... Os ganhos foram muitos no ano de 2011.
Agora resta esperar a chegada de 2012, tendo como único arsenal a esperança! Arsenal que nos ajudará a enfrentar os desafios que estão por vir. Seja bem vindo, 2012!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal (de verdade)



Comemorar o natal e ao mesmo tempo ignorar a realidade do mundo soaria como atitude minimamente hipócrita. Nesta época do ano é comum nos depararmos com atitudes que, em outros momentos do ano dificilmente acontecem. Para atender àquilo que o capitalismo ou sei lá o que pregam, parece que certo amor que não sei de onde vem invade o coração das pessoas.

Patrões que passam o ano todo humilhando e explorando funcionários os presenteia com panetones, confraternizações e afins; pessoas fazem “vaquinhas” para entregar cestas básicas aos que necessitam, como se a fome tivesse tempo pré-determinado para ser cessada; pessoas que mal se falam durante o ano todo se abraçam e desejam boas festas... Enfim, a hipocrisia rola solta!

No entanto, não é só de ceticismo que vive este blogueiro que, por sinal, há tempos não passa por aqui. Acredito que o Natal resgata sentimentos que deveriam ser valorizados nos 365 dias do ano. São atitudes básicas de humanidade que não podem ser prescindidas. Atitudes que, se praticadas com maior freqüência, tornaria o mundo um pouco melhor. O Natal poderia se estender por todo o ano, para que as pessoas passassem a “amolecer” o coração como fazem nesta época do ano.

Nunca fui adepto às comemorações de festas natalinas. Participo mais por convenção social. É muito bom sim estar em família, no entanto, acredito que também possamos comemorar juntos em outras ocasiões.

Dou mais valor ao que a maioria das pessoas, em virtude do consumismo voraz motivado pelo capitalismo nesta época do ano, acaba esquecendo: o grande mistério da encarnação de Deus, que assumiu inteiramente a condição humana, sobretudo as imperfeições. Ele veio como luz para iluminar as trevas da humanidade que havia perdido a esperança. É este o sentimento que deve nortear nossa vida, a fim de que saibamos manter olhar esperançoso frente ao mundo e, assim, estender para toda a existência os sentimentos natalinos.

sábado, 30 de julho de 2011

A imagem ideal do Divino

Antes de dizer amém em suas casas e lugares de oração, pensem, pensem e lembrem-se, existe uma criança ouvindo – Mary Griffity

Existe uma lógica que normatiza a expressão de nossa fé. Este costume nos é imposto desde o momento em que nascemos. Aprendemos os nomes de Deus, a temê-lo, a evitar que Ele nos castigue, a como experimentar nossa espiritualidade, enfim. Nossa relação com o divino é intermediada por meio de fórmulas prontas com as quais o diálogo com Deus é “facilitado”. Este tipo de religiosidade/espiritualidade revela uma lógica opressora, visto que nos aprisiona a nós mesmos, impedindo-nos de buscar o sagrado em sua verdadeira essência.

Nossa capacidade de descobrir a espiritualidade por meio do caminho da vida é cerceada à medida que nos é imposta a imagem de um Deus soberano, distante da realidade e todo-poderoso. Especialmente na infância, a imagem de Deus que é construída na mentalidade das pessoas é de um Pai austero que castiga seus filhos quando estes se desviam de regras tidas como verdades universais. Tal imagem é embutida no indivíduo, que cresce com esta visão do Sagrado. Este é um dos maiores causadores de toda a opressão que assola o mundo.

A existência de alguém que possui as rédeas da situação e a controla por meio de mecanismos opressores pressupõe medo e, por consequência, conformismo por parte da sociedade. A capacidade do ser humano de raciocinar, argumentar e se opor a preceitos impostos é subtraída.

A construção da imagem de um Deus opressor serve para esconder as opressões causadas pela própria humanidade. Colocar a culpa em Deus pelos equívocos e preconceitos sociais é mais cômodo. Sendo assim, instituições religiosas formulam suas prescrições a fim de edificar uma sociedade ideal para elas mesmas, isto é, benéfica para uma singela parcela da sociedade. O que é certo e o que é errado condizem unicamente com os ideais daqueles que controlam. O patriarcalismo impera.

No entanto, o que tudo isso tem a ver com a frase de Mary Griffity? É na educação nos primeiros anos de vida que a personalidade do ser humano vai sendo aos poucos moldada. A partir daí, o indivíduo cria capacidade e autonomia de discernir os caminhos a se seguir. Se continuarmos a dizer “amém” na frente das crianças a um Deus opressor, perpetuaremos a existência de uma sociedade que isola, exclui e prega preconceitos.

Por outro lado, se a imagem do divino for construída junto com a criança, a partir dela mesma e do universo no qual vive, os benefícios e as delícias desta descoberta se expandirão mundo afora. Talvez esse “despertar” possa ser um dos ingredientes para tornar o mundo um pouco melhor. Assim como disse Rubem Alves:

Minha infância foi uma infância feliz. [...]
Não era preciso dizer os nomes dos deuses nem eu os sabia.
O Sagrado aparecia, sem nome, no capim, nos pássaros, nos riachos,
Na chuva, nas árvores, nas nuvens, nos animais,
Isso me dava alegria!
Como no paraíso [...]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Na rodoviária, o abandono...

Ela estava sentada no banco da rodoviária naquela madrugada fria. Não me recordo o dia da semana. A manhã estava cinzenta, um tanto que deslocada do tempo. Apressado eu estava, mas aquele olhar triste me chamou a atenção e me fez parar por um instante e refletir. De onde vinha aquela criatura? Que histórias ela tinha para contar?

Seus cabelos brancos denunciavam experiência de vida. As mãos calejadas demonstravam longos tempos de trabalho intenso, a fim, talvez, de manter o sustento dos filhos. Será que ela tinha filhos? Por que será que estava ali, abandonada no frio? O que tinha deixado para trás? Será que alguém um dia já parou por um momento e a olhou nos olhos, como eu fiz naquele instante, mesmo que de forma rápida?

Na rodoviária vidas se cruzam de forma absurdamente veloz. Histórias de vida se esbarram toda hora! É um ir e vir permanente, no qual as pessoas chegam e vão embora... Medos, frustrações, alegrias e tristezas se confluem em uma confusão cósmica completamente surreal. Na rodoviária a vida se dá de forma desconecta e efêmera. Mas aquele rosto me cativou... Me fez parar pelo caminho corrido do meu dia e simplesmente contemplar. Foi rápido, mas a contemplei.

Contemplei seus cabelos brancos. Contemplei seus olhos marejados (o que será que já viram?). Contemplei sua frágil pele (o peso dos anos evidenciava-se). Devolvi a ela a condição de ser humano, pelo olhar humano que a concedi. A enxerguei com dignidade e respeito. Procurei imaginar o que já plantara e colhera nos jardins da vida, buscando respostas internas para os motivos que ocasionaram o extermínio de suas flores.

Ao compreender a fragilidade daquela mulher, me dei conta também de minha própria fragilidade. Tenho limitações inerentes a qualquer ser humano que sente vontade de mudar o mundo, mas não é capaz de fazê-lo. As faces do abandono daquele ser talvez sejam reflexos de uma sociedade injusta e excludente. Ou, talvez, seja motivo de desilusões da vida. Pois como diz a música, “cada um sabe a dor e a alegria de ser o que é...”

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pedaços de vida em minhas mãos



Meu desejo era agarrar nos braços dela e puxá-la de volta para a vida. Os últimos acontecimentos a fizeram sucumbir num estado de letargia outrora jamais experimentado. Antes dona de si, agora estava completamente derrotada. O motivo: roubaram dela sua essência, suas cores... A sequestraram simbolicamente, o que chega a ser mais abominável do que o sequestro físico. Quando se trata de sequestro da subjetividade, não existe valor que pague o resgate.

Ela e eu somos dois em um só ser. Nossas vidas se misturam a ponto de eu, inexplicavelmente, sentir as dores dela. Ela está em minhas mãos. Sou o responsável por redigir os versos que influem na vida dela. Sou dono dela. Se ela sucumbe neste momento, não existe outro culpado na história a não ser eu mesmo. O sentimento que tenho com relação a ela: pena. A meu ver, se trata de uma figura digna da mais sincera piedade, pois está em minhas mãos. Ao mesmo tempo em que quero tomá-la em meus braços como uma mãe embala um filho, tenho vontade de abandoná-la na escuridão, para depois ter a oportunidade de chacoalhá-la e agredi-la para que acorde para a vida.

Minha criatura sofre por minha causa, mas, não me sinto culpado por ter seu destino em minhas mãos. Para alguns isso pode ressoar como um sentimento sádico de minha parte, porém, minha falta de piedade com relação a esta criatura se deve única e exclusivamente pelas características dela que se assemelham a mim. As fraquezas dela são minhas fraquezas. Isso me causa angústia. Raiva.

A personagem que construí era dona de si. Sensata, perspicaz e inteligente, esbanjava simpatia e brilho por onde quer que passasse. As pessoas se sentiam bem ao estarem a seu lado. Desejavam tê-la como amiga, psicóloga, companheira. Todos tiravam proveito de sua inteligência ímpar e inestimável.

Gradativamente estas virtudes se transformaram na grande desgraça de minha criatura. Seu encanto a impedia de conquistar o amor. Todos a superestimavam como a pessoa perfeita. Tais rótulos foram os motivos de sua solidão. De tão perfeita que era, acreditava que tinha o direito de ser amada. Ela tinha amor para dar. E desejava depositar suas doses de afeto em alguém. Entretanto, jogaram seu amor às traças, que o corroeram.

Minha criatura era tão peculiar que tudo o que sentia, sentia em dobro. Era toda essência, toda sentimento. Se era para ser feliz, ficava feliz em dobro, mas, se a tristeza batesse à sua porta, ela escancarava para que a maldita entrasse e roubasse cada espaço dos cômodos de sua alma. Tola. Pobre tola...

Fraca. Ah, como minha criatura era paradoxal. A criei imponente, mas preferiu dar espaço para que roubassem dela o que tinha de melhor. Suas melhores cores foram levadas embora. Tornou-se inteira preta e branca. Incolor.

Como criador o que me resta fazer? Chacoalhá-la e trazê-la de volta para a vida. Reanimá-la. Apresentar um novo jardim cujas flores estão se abrindo para o sol. E dizer baixinho eu seu ouvido coisas do tipo: “você tem muito a oferecer... Feliz daquele que puder desfrutar de seu amor... O mundo precisa de você...”

Enfim, sou responsável pelo destino desta pobre criatura que desfalece sem brilho. Tolhi seu direito à vida, mas prometo reanimá-la aos poucos. Já tenho as tintas necessárias para devolver suas cores. Grande responsabilidade. Bela dádiva. Sou escritor de vidas...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Nossas Palavras...


Palavras... Palavras transformam. Palavras têm o poder de expressar sentimentos verdadeiros, aqueles oriundos da alma. No entanto, Palavras são dialéticas. Ao mesmo tempo em que são vastas e profundas, são limitadas. De paradoxos são feitas as Palavras...

Se existe no mundo uma forma de se atingir o espírito, isto se dá por meio de Palavras. Foi este artifício utilizado até mesmo pelas primeiras civilizações, que utilizaram a Palavra de Deus para atingirem objetivos previamente traçados. É verdade que Palavra tem poder. Palavra pode manipular... Pode encantar... Mas também pode desencantar...

Para os poetas, as Palavras são ferramentas de trabalho. Para se praticar tal ofício, é necessário saber manejá-las com afinco. Palavras não são manipuladas manualmente, pelo contrário, apenas sentimentos podem agarrá-las e distribuí-las em seus devidos lugares...

Palavras são perigosas. Se colocadas em lugares errados então, nem se fala! O segredo que habita a essência das Palavras pode ser desvendado por meio da interpretação. Infelizmente não são todos os seres humanos que detêm a efetiva capacidade de interpretar. Interpretação requer, sobretudo, humanização. E, claro, sabemos que as pessoas são limitadas, assim como as Palavras. Limitação esta que se estende a capacidade de interpretar determinadas Palavras. Às vezes, o significado se encontra nas entrelinhas. E felizes são aqueles que conseguem captar as mensagens!

Arrisco-me a me colocar defronte as Palavras... Posso manejá-las à medida que meus sentimentos interagem e me conduzem a escolher aquelas que realmente possam expressar minha essência. É sinérgica a forma pela qual esboçamos, nas entrelinhas, as mensagens que queremos transmitir aos quatro ventos.

Experimentar a sinergia requer um pouco de esforço... É necessária a capacidade de arrancar o véu que embaça a visão... É preciso ambivalência: a capacidade de olhar para todos os campos da visão. Mas, não basta olhar com os olhos, é preciso olhar com o coração, para que a verdadeira Palavra possa agir: a Palavra de cada um/a de nós...

terça-feira, 17 de maio de 2011

Janela


Sozinha estava ela parada na janela vendo a vida passar. O tédio havia tomado conta daquele pobre coração abandonado... Tivera tudo. Hoje, não tinha nada. Sua única alegria era ver as folhas secas sendo derrubadas pela força do outono frio. Ah, outono... O outono e suas recordações... Para ela, esta estação era um misto de alegria e tristeza.

Recordava-se de passagens de vida que vinham como flashes em sua mente. Momentos que contribuíram para a construção de uma personalidade excêntrica e solitária. No passado, houvera redenção, pois acreditava em sonhos. Hoje, restam apenas esperança de que o final da caminhada se aproxima. A crença de outrora, na qual confiava na luz que emana das trevas, deu lugar a um ceticismo pessimista sem perspectiva de futuro.

Ela havia traçado projetos que valiam mais do que sua própria vida. Mas, no decorrer dos dias, percebeu que caminhava sozinha e em direção contrária aos acontecimentos. O mundo havia se transformado em um verdadeiro caos. O fato de caminhar na direção oposta a levou a ser taxada como maluca, o que de fato aconteceu. Tornou-se sozinha e maluca!

Agora, restava apenas esperar... Esperar eternamente por algo que, acreditava ela, haveria de surgir... Uma espera cruel e cansativa, porém necessária. Mas o que a mantinha firme, ali em frente à janela, eram nacos de esperanças que brotavam de dentro da alma como uma pequena chama prestes a ser apagada, mas que ainda aquece... Utopias de um dia fazer valer à pena... Ela descobriu o valor de uma janela: ali, estática, sempre vendo a vida passar; ela não queria ser uma simples janela... Queria poder pular e transformar o ciclo natural da vida. Ela queria apenas ser mais... E este desejo a consumia!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entre Escolhas e Marcas. De como vou compreendendo a essência...

A vida é uma caixinha de surpresas. Perdão começar um texto com um pensamento tão comum e simplista. Isso pode até desanimar e induzir o leitor a parar a leitura por aqui mesmo. Mas esta frase revela dimensões grandiosas. É... De surpresas a vida se faz! Somos surpreendidos em todos os momentos, sendo que os maiores responsáveis por estas surpresas somos nós mesmos. Basta que nos deparemos com possibilidade de fazer escolhas. E que haja discernimento! Uma das maiores dificuldades do ser humano, a meu ver, é escolher!

O raciocínio é simples. Imagine-se na seguinte situação: uma longa estrada. Logo à frente, uma placa com duas flechas indicando a possibilidade de seguir a estrada da direita ou da esquerda. O resultado disso: muita confusão! Esse atordoamento mental acontece devido às limitações enraizadas em cada ser humano, sendo a maior delas o medo de errar. Não seria para menos, visto que alguns erros podem repercutir por toda uma vida. Basta escolher o caminho errado.

Durante as fases da vida, somos levados a fazer escolhas. Isso é inevitável. Algumas dessas escolhas vêm mascaradas com a possibilidade de partida. Trilhar novos rumos passa a ser inevitável, visto que o ser humano tem a capacidade de sempre buscar ser mais. Mudanças, despedidas e dor são termos que se combinam.

Como uma viagem de trem, é a vida. Constantemente chegamos à estação, deixamos o vagão e novos aventureiros seguirão viagem. Subimos em outro vagão para trilharmos outro caminho e, no percurso, encontramos outros viajantes, que passarão a compor nossa história, deixando marcas. Inevitavelmente, ao término dessa viagem, chegamos ao destino e buscaremos outro rumo, deixando para traz aqueles que conhecemos, levando no coração somente as marcas que deixaram... Assim é o ciclo da vida. Se repete a cada instante.

Ao nos depararmos com a possibilidade de escolhas, devemos criar forças. Uma força que brota do mais profundo âmago da alma, que nos leva a nos desprender de ideologias enraizadas. Escolher pressupõe mudança de atitude e desprendimento. Requer esvaziamento de ego. Requer, sobretudo, desapego.

Devido à necessidade de mudar, as relações se tornam cada vez mais descartáveis, visto que as pessoas apenas passam por nossas vidas. Entretanto, as marcas que deixam duram eternamente.


Maria Rita expressa o "Destino" como ninguém na canção abaixo... Confira e sinta...