segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dica de Cinema


Dogville: Repressão Social


Uma cidade surreal, mas ao mesmo tempo um retrato da sociedade contemporânea. Habitantes aparentemente agradáveis, mas que ao decorrer do tempo se mostram completamente insanos, ou melhor, humanos. Acrescente aí uma bela e misteriosa mulher fugitiva da máfia. Bem vindo ao excêntrico mundo criado por Lars Von Trier: Dogville.

Instigante, excêntrico e perturbador, o filme apresenta uma pequena cidade povoada por nada mais do que uma dezena de moradores. A história se passa na década de 1930, época na qual o mundo sofria as mazelas da grande depressão. Grace (Nicole Kidman), a jovem fugitiva, chega a Dogville completamente atordoada. Eis que conhece Tom (Paul Bettany), um introspectivo intelectual que lhe oferece abrigo. Como forma de pagamento pela hospitalidade oferecida, a moça faria trabalhos para os moradores da comunidade. No início tudo ocorre da melhor forma possível, mas a vida de Grace estava a um passo de se tornar um grande pesadelo.

Laços fraternos de amizade são construídos com os moradores de Dogville. Porém, conforme surgem algumas investigações por parte da polícia acerca do paradeiro da moça, o que se vê é uma absurda transformação de personalidade em cada um. O lado sombrio é retratado de forma sábia, denunciando o fato de o ser humano ser um rol de dualidades. Como se trata de Trier, não é preciso dizer o que Grace enfrentará no decorrer do filme. A temática apropria-se de conteúdos polêmicos como a restrição da liberdade, abuso sexual, trabalho compulsório, traição e sadismo.

O diretor tem uma capacidade ímpar de quebrar estereótipos impostos por produções hollywoodianas. Assim como em “Dançando no Escuro”, o lado sombrio das personagens, tal como suas friezas, dilui-se em enredos mesclados com drama e humor negro.

O que mais chama a atenção em Dogville é o ousado espaço cênico. A simplicidade é tanta que à primeira vista passa a impressão de que o orçamento da produção sofreu cortes. Mas a fórmula funcionou, visto que a singeleza aflora o estado de apreensão no espectador. Analisando o surrealismo cênico, pode-se denotar que a intenção do diretor foi equiparar a vida, bem como suas relações, a um verdadeiro teatro. Inteligente metáfora.

A mistura de elementos teatrais e literários sobrepõe-se a qualquer necessidade de cenografia. O cenário invisível, sem precedentes no cinema, proporciona uma vista geral dos coadjuvantes em cena, sem destoar da narrativa principal. Ao mesmo tempo, escancara a essência de cada personagem, levando o público a analisar com olhos clínicos a desumanidade que aflora no íntimo de cada um.

Diversas leituras podem ser feitas a respeito de Dogville. Cada espectador tira suas próprias conclusões ao analisá-lo. Não é um filme para ser visto apenas uma vez. A impressão que deixo, é que se trata de uma obra sobre o comportamento humano e suas discrepâncias. Faz pensar a respeito da vida em comunidade e nas aceitações de regras impostas por grupos. Desertores de leis, em qualquer sociedade, sofrem represálias. Em Dogville não é diferente. Mas até que ponto o respeito a dogmatismos não passa de mero jogo de interesse e de oportunidade para exteriorizarmos o que temos de mais sujo? É assistir para compreender.

Confira Trailer do filme:


9 comentários:

Rafael Lopes disse...

Pelo trailler e o seu texto o filme é trash.

Pelo jeito tem um pouquinho de suspense também na história.

Bom texto, abraço

Diuân Feltrin disse...

Está a anos-luz de ser considerado um filme trash Rafa! Você precisa assistir! Aposto que vai gostar.

Lucas Tosta disse...

Está e há muuuuuitos anos-luz de ser trash, um dos filmes mais loucos e intrigantes que já vi na minha vida, porém um dos melhores, que prende sua atenção de tal forma que vc quer ver o final, embora pareça meio chato no início, mas é um filme FANTÁSTICO!!! parabéns Diuan.. brilhante definição desse espetáculo cinematográfico!

blogdozemarcos.com disse...

::: Adoro suas resenhas, Diuân. Sempre muito criativas e deixam a gente com vontade de assistir ao filme. É o que vou fazer, com certeza!

Diuân Feltrin disse...

Obrigado Zé! Recomendo! Um dos melhores filmes que já assisti.

Carol disse...

Há muito tempo quero assistir a este filme! Eu confesso que não li o texto inteiro, só o primeiro parágrafo, pois tenho esta mania de não ler nada sobre o filme antes de assistir para não ter uma ideia prévia! (rs, coisa de maluco). Depois que eu ver, volto, leio e comento!

alexandre disse...

Prezado
Parabéns pelo blog!
Abs
Alexandre Taleb
Consultor de Imagem/Personal Stylist
Visite meu blog: http://ataleb.wordpress.com/

DANIZINHA disse...

Adorei muito o seu texto. E a carol, que minha amiga na vida real, por assim dizer, nem precisava se preocupar pois, não tem spoiler.
Este é um filme que quero ver tbem. Já ouvi muito sobre ele. E como uma apaixonada por cinema, não assisti-lo é assim quase que imperdoável.Vou ver se consigo encontrá-lo.

beijos

Diuân Feltrin disse...

É isso aí pessoal! O filme é muito bom! Recomendo a todos! Muito obrigado pela visita e pelos comentários!