domingo, 19 de abril de 2009

Dica de Cinema


A face da opressão

Instintos animalescos estão aprisionados no íntimo de todo ser humano, e podem ser libertados mediante circunstâncias opressoras. Talvez este argumento possa justificar a ação de criminosos que afligem a sociedade contemporânea. Provavelmente são pessoas que, desprovidas de oportunidades e excluídas do meio social, optaram pelo crime como maneira de sobrevivência. Este é o ponto de partida que sustenta o polêmico Monster – Desejo Assassino (Monster).

O drama dirigido por Patty Jenkins narra a trajetória da primeira serial killer dos Estados Unidos. Aileen Wuornos, interpretada por Charlize Theron, foi uma mulher com a vida destruída desde a infância. Aos treze anos, Lee, como era chamada, foi vítima de estupro. A partir daí, completamente abandonada pela família, ingressa na prostituição, considerada pela jovem uma maneira fácil de conseguir verbas para sobreviver, digamos, “dignamente”.

Com o passar dos tempos, Lee muda-se de Michigan para a Flórida, onde conhece Selby Wall (Christina Ricci) garota mimada que, devido ao fanatismo religioso dos pais, mascara a homossexualidade. O primeiro encontro com a frágil jovem desperta em Lee um sentimento sem precedentes. Apaixonam-se rapidamente, e passam a viver um tórrido romance.

Para conseguir dinheiro e proporcionar bem-estar à namorada, Lee continua a se prostituir. No entanto, uma noite paradigmática muda completamente os rumos da história: um cliente a humilha, a estupra e passa a torturá-la. As cenas são chocantes. A prostituta reage e liquida o opressor.

Após o fatídico episódio, Aileen Wuornos decide mudar de vida. Sai à procura de emprego, entretanto, por não ter sido beneficiada com regalias essenciais ao sucesso profissional de qualquer pessoa, é ridicularizada antes mesmo de iniciar as entrevistas. Completamente desorientada e, preocupada em proporcionar vida digna ao “amor de sua vida”, Lee retorna à prostituição.

Os traumas falam mais forte. Com o pensamento invicto de que todos os indivíduos transcendem o bem e o mal, Lee extermina todos os clientes que considera indignos. Os crimes, para ela, não passavam de meros artifícios de sobrevivência. E mais: se estava nessa vida, era única e exclusivamente pelo amor sem igual que sentia por Selby. Os rumos da história são surpreendentes.

A sensual Charlize Theron desapareceu para dar lugar a uma figura que representava a verdadeira face da incerteza. A beleza da atriz foi suprimida pela imagem de uma criatura cuja vida sempre foi um fracasso. Os poucos momentos de felicidade foram vividos ao lado de Selby. O amor entre as duas mulheres abandonadas e oprimidas convertia-se em força que as mantinha vivas, uma em razão da outra. De um lado, a fragilidade de uma jovem aprisionada pelos pais em uma “torre de marfim”; do outro, uma prostituta triste e desamparada, sem rumos na vida, cuja moral e essência foram roubadas por sequestradores de almas. Criaturas distintas, mas paradoxalmente semelhantes.

Charlize recebeu, em 2004, o Globo de Ouro de Melhor atriz pela interpretação da personagem real. Monster – Desejo Assassino é um filme que faz pensar sobre até que ponto os instintos inerentes à condição humana podem ser resguardados mediante situações degradantes. Fica a questão: após inúmeras humilhações, são justificáveis os crimes cometidos por Aileen Wuornos?

Título Original: Monster

Ano de Produção: 2003

Elenco: Charlize Theron, Christina Ricci, Bruce Dern, Scott Wilson, Lee Tergesen.

Gênero: Drama/Suspense

Classificação: 18 anos

Direção: Patty Jenkins

2 comentários:

Tamyris Araujo disse...

Olá, Diuân!
Ótimo texto, você escreve muito bem! Parabéns!
Sobre o filme, deve ser muito bom mesmo, apesar de 'forte'... quando der quero assistir!
Parabéns pelo blog!
T+

blogdozemarcos.com disse...

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